sexta-feira, 27 de julho de 2018

O mito da imparcialidade no jornalismo e a História

José Fernando Nandé


O grego Heródoto (485 – 420 a.C.) consta como o primeiro sujeito que se preocupou em escrever a História. Embora com defeitos, parcial às vezes, fantasioso muitas vezes, pois não havia ainda método claro de pesquisa histórica, temos que considerar o seu valor, pois Heródoto nos deu antes de mais nada, o registro do pouco que conhecemos nesses dez mil anos em que nos identificamos como humanidade. Aquém disso, pouco ou nada sabemos, além das pistas que nos são dadas pelos achados arqueológicos, pela especulação e pela ficção.
Essa preocupação com a imparcialidade entre os que se propunham a descrever os fatos numa linha cronológica, ou não, só se firmou com o tempo, ao se separar o que era mitologia, literatura e a história propriamente dita (conceitualmente, história também é literatura!). Nesse esforço, encontramos o historiador romano Tácito (Publius Gaius Cornelius Tacitus; 55 – 120 d.C.), que já no início de suas obras alertava, “sine ira et studio“, ou seja, “sem ódio e sem preconceito”, ou sem parcialidade naquilo que escrevia. Ao que acrescentamos, “sine vanitas“, sem vaidades. Pois ainda é comum, encontrarmos poderosos que compram a peso de ouro biografias fabricadas, sobremodo em nosso tempo, em que vivemos sob a ditadura midiática e que, desta forma, pensam estar escrevendo a história, geralmente um amontoado de “verdades” convenientes para iludir a imprensa e a opinião pública por um tempo, mas não por todo tempo. Em análise apurada, são poucas dessas biografias que passam incólumes, anos mais tarde, pelo crivo dos historiadores.
Por isso, desejar de jornalistas, que definitivamente não são historiadores, um compromisso com a imparcialidade é algo insano. Ora, a matéria prima da imparcialidade nos parece ser o tempo, coisa que a notícia jornalística não dispõe. Os fatos acontecem e são registrado simplesmente, influenciados pelo meio e pelas vaidades imperantes. O juízo desses fatos dentro de um contexto mais amplo, afastado de todos os fatores que possivelmente os distorceram, é tarefa do historiador e não de curiosos ou de profissionais que não possuem com clareza os métodos de investigação próprios dos que se dedicam ao profundo estudo da História.
Portanto, o jornalista é um escrivão de diários. O historiador é um intérprete destes diários. Dessa maneira, falham os jornalistas que se aventuram pela interpretação histórica do factual e falham mais ainda os historiadores que tomam o factual como verdade. Somente o tempo pode tirar a influência das paixões, sine ira, studio et vanitas, sobre o objeto do estudo histórico.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

A arte de nomear incompetentes úteis ao governante (I)


José Fernando Nandé



Na época do Brasil Colônia, as nomeações de funcionários em Portugal eram garantidas por lei e dependiam única e exclusivamente da vontade do rei. Esse costume ainda sobrevive, e com força, aqui entre nós. Interessa saber a razão. Para isso, vamos fazer uma breve retrospectiva histórica desse velho costume de nomear, herdado pelos países da Península Ibérica, em especial Portugal e depois introduzido nas colônias, como foi o caso brasileiro.
A primeira pista sobre a instalação desse costume, no Brasil, vem da própria formação política da Península Ibérica. Tanto Portugal quanto a Espanha têm suas origens profundamente marcadas pela expansão do Império Romano. Aliás, uma das razões da decadência e queda do Império vem justamente do ato de nomear. A rigor, para se obter cargos públicos e dessa maneira buscar uma carreira política, o cidadão romano dispunha de cinco formas: herança de sangue; eleição; nomeação; suborno; ou por assassinato em que também concorria o suborno.
Em seus últimos anos, o Império praticamente adotou as duas últimas formas. Assim, qualquer cargo poderia ser comprado com os devidos acertos políticos, desde um posto na magistratura ou até mesmo o de general, ou imperador. Ora, não há império que sustente em tamanho nível de corrupção, e o Império Romano do Ocidente veio abaixo em 476 d.C.; e no período dos Césares, praticamente todos foram vítimas de conspirações e morreram violentamente por pancadas, punhaladas ou envenenados.
Portugal deriva do Império Romano do Ocidente, sendo que o Brasil, como colônia, vai absorver grande parte dessa herança imperial, inclusive no Direito. Assim, para seguirmos adiante em nossa investigação, vamos ter que, antes de tudo, comentar o pensamento reinante na Grécia e sobremodo, em Roma. Origens políticas da raiz desse nosso costume de nomear.
O primeiro tópico que devemos levar em consideração ao se examinar as relações de poder nesses estados antigos, ainda modelos do nosso, é a noção de liberdade do homem e porque ele se submetia tão facilmente à autoridade de um soberano, ditador, rei ou imperador. Conforme nos explica o historiador Fustel de Coulanges (1830-1889), em sua obra máxima denominada de A Cidade Antiga, a liberdade nunca teve, tanto no Estado Grego quanto no Romano, o mesmo entendimento que temos dela nos dias de hoje.
”É, pois, um erro singular entre todos os erros humanos ter crido que nas cidades antigas o homem gozasse de liberdade. Ele nem sequer tinha ideia dela. Não acreditava que pudesse haver direito em relação à cidade e seus deuses (...) o governo mudou várias vezes de forma; mas a natureza do Estado permaneceu mais ou menos a mesma, e a sua onipotência diminuiu pouco. O governo chamou-se alternadamente monarquia, aristocracia, democracia; mas nenhuma dessas revoluções deu aos homens a verdadeira liberdade, a liberdade individual. Ter direitos políticos, votar, nomear magistrados, poder ser arconte, a isso se chamava liberdade; mas nem por isso o homem deixava de estar submetido ao Estado. Os antigos, e sobretudo os gregos, sempre exageraram a importância e os direitos da sociedade; esse fato se deve, sem dúvida, ao caráter sagrado e religioso que a sociedade assumira originalmente.¹
Em outras palavras, Coulanges infere que o direito de comando de algum homem dentre os outros homens é, para os antigos, decorrência da vontade dos deuses, numa sociedade que nasce a partir de simples religiões familiares individuais, com seus deuses lares e avança para uma forma mais complexa, à medida que essas famílias se agrupam em cidades, com deuses não mais somente familiares, mas deidades de natureza coletiva. São esses deuses coletivos que darão a certos escolhidos o direito de governar sobre os outros homens, com várias prerrogativas, inclusive a de indicar seus auxiliares para a tarefa.
Notem que, nos dias atuais, embora não exista mais a necessidade da concordância dos deuses para que um homem venha a governar, a metodologia para o estabelecimento das investiduras em cargos públicos por nomeação continua praticamente a mesma, passados mais de dois mil anos.
Em nossos dias, ainda cabe ao governante eleito, ou guindado ao posto de governante por outros métodos, inclusive os não-democráticos, a nomeação de seus auxiliares para a formação de uma estrutura burocrática de sua confiança. Pressupõe-se que, por ter sobrevivido por todo esse tempo, não importando o regime adotado pelo Estado, a nomeação, ou modernamente, a condução para cargos comissionados, é o que dá sustentação a qualquer governo.
Portanto, não se concebe o Estado, mesmo nas mais refinadas democracias, sem o cargo em comissão, pois sua existência parte do princípio da confiança de quem nomeia e governa. Nomear, em última análise, é um direito do governante; agora, se a nomeação é correta, moral, de conformidade com a lei, ou legítima e necessária, são ponderações que vamos fazer mais adiante.

O poder de nomear

Boa parte da civilização romana tem seu molde na civilização grega, assim como a nossa tem seus princípios e costumes na romana. Por isso, como já observamos, vamos nos concentrar nos romanos e mostrar aqui alguns pormenores da época para que possamos traçar paralelos com os nossos dias. Essa digressão histórica é necessária para a boa compreensão das teses que sustentaremos em nosso trabalho e sem elas, quaisquer futuras afirmações que façamos estarão desprovidas das fortes colunas que devem sustentar a construção de nossas argumentações. Inicialmente, para nosso propósito, devemos verificar como as nomeações eram tratadas no Império Romano e para tal, contaremos com a ajuda do historiador Suetônio (69-122 d.C.), que retrata os bárbaros costumes imperiais e o início da decadência do poder romano.
Caio Júlio César (100 – 44 a.C.), por exemplo, tinha a firme crença, como outros imperadores, que seu direito de governar vinha de sua descendência direta dos deuses, ou seja, além da herança de sangue, ele governava por direito divino: “Minha tia Júlia é descendente de reis por parte de família de sua mãe; por parte da família de seu pai encontram-se ligados os deuses imortais (...) os Júlios, antepassados de nossa família, são descendentes de Vênus. Desta forma, misturam-se a nossa raça a santidade dos reis que exercem tão poderosa influência sobre os homens, e a majestade dos deuses, que mantêm debaixo de sua autoridade os próprios reis”
Quanto ao ato de se nomear, ou do cidadão ser indicado a cargos públicos, são várias as passagens que encontramos em Suetônio. As mais reveladoras estão nos capítulos dedicados a Calígula e ao seu sucessor, Cláudio (Nero Cláudio César; que viveu do ano 37 ao ano de 68 depois de Cristo), que era considerado um imbecil e, mesmo assim, exerceu vários cargos públicos, inclusive o de imperador, aos 50 anos de idade, após a morte de seu antecessor, Calígula, consolidado na história como louco. 
Escreve Suetônio sobre ascensão Cláudio, ainda antes de obter o cargo máximo do Império:
“Sob a autoridade de Caio, filho de seu irmão, que no início de seu reinado procurava por meio de toda espécie de obséquios fazer-se uma reputação favorável, alcançou as honras exerceu o consulado com ele durante dois meses. No entanto, a primeira vez que se dirigiu ao Fórum com os fasces, uma águia pousou na sua espádua direita. Dessa forma, foi designado pela sorte para exercer, ao termo de quatro anos, um segundo consulado”.³
Uma bela passagem que ilustra costumes que ainda temos aqui no Brasil, como veremos adiante, em que, até mesmo alguém de notória ignorância, consegue altos postos em governos (vide casos da atual composição do Judiciário), desde que conte com um bom pistolão e golpes de sorte. Ou seja, tudo fica mais fácil para quem tem um parente em destacada posição de mando dentro de um governo.
Falamos até agora das benesses obtidas por parente próximo do imperador. Mas, o poder dele nomear chegava a qualquer cidadão. Tiremos como exemplo Tibério Nero César (viveu de 42 a.C até 37 d.C.; sucessor de Augusto), que decidia, afora os cargos eletivos, que em sua época já eram poucos, o destino de praticamente todos os funcionários do Império. Tibério “conseguiu introduzir no Estado uma certa aparência de liberdade que conservou a antiga majestade, e o antigo poder do Senado e da Magistratura”, narra Suetônio. “Não existiu nenhum negócio, pequeno ou grande, público ou particular, do qual não prestasse contas aos padres conscritos. Sobre os consultava sobre impostos, os monopólios, os edifícios a serem construídos ou reparados e até mesmo sobre recrutamento e licenciamentos militares e sobre a distribuição de legiões e das tropas auxiliares. Também lhes perguntava sobre quais generais deveriam ser conservados nos postos de comando; a quem entregar a direção das guerras extraordinárias; em que sentido e de acordo com tais fórmulas se deveria responder às cartas dos reis...”. (4) Eis como um tirano pode mascarar seu governo, pois é sabido que, embora mostrando-se generoso em público, Tibério também exercia o governo com mão de ferro e que não dispensava o uso da pena capital para eliminar seus inimigos, cassando seus antigos títulos de nobreza e se apossando de seus bens. Ávido por dinheiro, se entregou à rapinagem e arranjava os mais ignóbeis motivos para jogar em desgraça qualquer cidadão ou província que lhes pudessem gerar algum lucro.
Quanto ao costume de se indicar sucessores aos cargos vacantes por meio de suborno ou assassinato, a história romana está repleta de exemplos. Tantos que somos forçados a escolher um caso aleatório.  Vamos, portanto, ao mais famoso deles, a morte de Nero, que foi forçado ao suicídio depois de uma conspiração familiar e dos próprios palacianos, que estavam cheios de seus desmandos, temerosos inclusive de perderem a própria vida. Com Nero, a família inteira dos Césares deixou de existir. Sucedeu-lhe Sérvio Suplício Galba, que não pertencia à casa dos Césares, porém era da alta nobreza. Assim que assumiu, Galba fez colocar no vestíbulo do palácio sua árvore genealógica, a qual mostrava sua origem.  Por parte de pai, ela chegava até Júpiter, deus que garantia, dessa forma, a origem divina dos poderes concedidos ao novo imperador, mas sem, no entanto, renegar o título de César, que em si, por tradição, também lembrava a divindade do soberano. Aliás, esse costume de ter “uma indicação divina” para o exercício do máximo poder, vai continuar pelos séculos seguintes nas monarquias, mesmo depois da queda do Império, com o poder sendo uma outorga não mais de deuses pagãos, mas do Deus cristão, com a aprovação da Igreja Católica Apostólica Romana, que guardaria para si esse privilégio de ungir os reis e príncipes por mais de mil anos.

Parece-nos, neste contexto do divino que, durante o episódio de sua prisão, o condenado Luís Inácio Lula da Silva, tentou, mas sem sucesso, numa missa chamada por muitos de “negra”, passar à religiosa sociedade brasileira, a ideia que havia uma unção dos céus pelo seu direito ao poder, mas não mais por direito de sangue, mas sim por direito de origem sindical, ou seja, por supostos serviços prestados ao povo.  

NOTAS
¹A Cidade Antiga, Coulanges, pg. 239
²A Vida dos Doze Césares, Suetônio, pg. 16. 
³Idem, pg. 247  
4 Ibidem, pp. 165, 166.

terça-feira, 24 de julho de 2018

A lenda da corrupção no DNA do brasileiro - Foi Caminha o primeiro corrupto a pisar no Brasil?

José Fernando Nandé


Há uma lenda na política brasileira a ganhar terreno todos os dias e que concede a Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, em 1500, a primazia no afamado "jeitinho brasileiro". Pela lenda, no final de extensa carta ao rei Dom Manuel I, em que Caminha tece pormenores sobre a nova terra descoberta e da própria expedição, o escrivão pedira ao rei um cargo para seu genro. Mas, de acordo com o historiador e jornalista Sinval Medina, essa história toda não passa de exagero até mesmo da própria imprensa que, toda vez que corrupção no Brasil toma destaque nos noticiários, a revive para ilustrar o tema.
Ou seja, por essa visão simplista da história, há uma indução para se fazer crer que a corrupção no Brasil está profundamente atrelada aos detentores de cargos públicos e a outros vícios administrativos e que isso se deve ao DNA político herdado dos portugueses. Genes que teríamos até hoje em nosso sangue, conforme destaca o historiador Boris Fausto: "Uma percepção corrente aponta a eternidade da corrupção em nosso país, invocando as raízes da formação ibérica em que imperaram as relações sociopoliticas patrimonialistas e, portanto, a indistinção do patrimônio público e do privado. Uma decorrência dessa perspectiva é o fatalismo que tende a acompanhá-la. Se esse e outros problemas graves do país estão inscritos no seu DNA, as possibilidades de superá-los seriam remotas, na melhor das hipóteses". (O Estado de S. Paulo 19/6/09, pg.2).¹
Ora, examinando esse suposto DNA da corrupção, podemos adiantar que Caminha realmente se utilizou do cargo para pedir um benefício ao rei, mas não um cargo para o genro. Observem leitoras e leitores, como o próprio Caminha escreve em sua tão famosa carta, em seu final, já como um pós-escrito:
"(...) E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E se a um pouco me alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez proceder assim pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro, o que Dela receberei em muita mercê. Hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500).²
Pelo exposto, no final da carta observamos que Caminha realmente tenta fazer uso de seus privilégios de funcionário da Coroa ao elaborar o relato, que seria de sua obrigação de função junto à frota. Para isso ele usa da estratégia de informar um grande fato, na esperança de que, com a alegria de Dom Manuel I, o seu objetivo fosse alcançado: a remoção novamente para Portugal de seu genro, um tal de Jorge Osório, que fora condenado a degredo na ilha de São Tomé, em África. Pelo que explicam os historiadores, o genro de Caminha não era flor que se cheirasse, pois havia recebido a condenação pelos seus maus costumes, dentre eles, o assalto à mão armada. Isso também nos dá a dimensão do drama pessoal de Caminha. Ao que parece, ele preferia ver Isabel, sua única filha, juntada a semelhante sujeito, em mau casamento, a tê-la sem ninguém, numa sociedade conservadora em que a mulher casada, vivendo longe do marido, seria quase que um pecado, embora estivessem em vigência em Portugal as Ordenações Afonsinas (1446)³, as quais separavam o Direito Canônico do temporal.
E tinha razão o escrivão da frota, pois ele jamais retornaria aos portos lusitanos para amparar sua filha. Caminha seria morto em combate (dezembro de 1500) alguns meses depois de ter registrado o nascimento do Brasil em carta, que fora levada ao rei pelo capitão Gaspar Lemos, destacado para essa missão, enquanto o restante da frota seguia para a Índia. Sabe-se que Dom Manuel I recebeu a missiva, mas quanto ao pedido de Caminha, por ausência de dados históricos, ninguém imagina o desfecho.
Portanto, se Caminha não usou de seu posto para almejar cargo para seu genro, ele lançou mão do privilégio de pedir um favor ao rei em assunto legal. Ora, esse pedido do escrivão da frota de Cabral, pela moral comum, seria condenável, mas pela moral do Direito, seria um ato admissível, posto que as tais Ordenações vigentes facultavam ao rei a prerrogativa de perdoar ou comutar penas impostas. Recentemente, essa tradição do Direito brasileiro, em que se dão ao réu recursos à última instância, foi relembrada durante os debates do Supremo Tribunal Federal (STF) por ocasião da admissão dos polêmicos embargos infringentes no julgamento da Ação Penal 470, conhecida popularmente como ação do Mensalão.

Uso do cargo para pedir favores, o tráfico de influência
Para o escopo deste artigo, a história de Caminha só nos serve para levantarmos dois pontos morais. O primeiro, a investidura em cargo público. Segundo, o uso que se faz desse cargo para interesses pessoais ou de grupos interessados.
No caso do genro de Caminha exclusivamente, notamos que, pelas Ordenações se previam penas para os autores de crimes contra a Coroa, como a adulteração de moedas ou atos de lesa-majestade. A maior parte dos crimes era punida com o degredo, forçando o infrator a se ausentar temporariamente, ou para sempre, de Portugal. Também estavam sujeitos ao degredo aquele que praticasse sedução de moça virgem ou viúva honesta, roubo, lesões corporais, e má-fé em transações comerciais. Dependendo da natureza de seus crimes, concorriam contra os criminosos outras penas, como a capital ou condenação às galés, castigos muito mais pesados do que o banimento ou degredo perpétuo. Uma vez transitada em julgado, a sentença não poderia ser comutada, a não ser "por uma graça especial" do rei. Ou seja, o monarca tinha poderes, previstos em lei, para conceder indulto aos apenados. Então, o pleito de Caminha era justo e qualquer atitude tomada pelo rei estava respaldada pela lei.
Embora o pedido de Caminha pudesse hoje ser interpretado como oportunismo, por se aproveitar da situação do descobrimento, não nos parece que há crime no pedido. Com muito esforço, poderíamos admitir certa tentativa de tráfico de influência à luz de nossas leis atuais, que consiste na prática ilegal de uma pessoa se aproveitar da sua posição privilegiada dentro de uma empresa ou entidade, ou das suas conexões com pessoas em posição de autoridade, para obter favores ou benefícios para terceiros, geralmente em troca de outros favores ou pagamento. Ora, Caminha detinha essa posição privilegiada, além de nomeado escrivão da frota, ele fora também vereador em Lisboa, cargo reservado aos súditos do rei de boa origem, mas não se utilizou de outros recursos, a não ser pedir, para colocar adiante o seu desejo em relação ao seu genro e também não ofereceu pagamento ou outro favor que não fosse a garantia de que iria continuar servindo bem ao seu soberano (Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida).
Notas
¹Observatório da Imprensa, número 776.
²Conforme texto original, Fundação Biblioteca Nacional
³ Temos ainda as Ordenações Manuelinas (1521) e Ordenações Filipinas (1603)

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Marx ensinou o capitalista a vender ideologias

José Fernando Nandé



Um dos maiores estudiosos do capitalismo foi Karl Marx (1818-1883), que para a juventude de hoje é algo como um papai-noel barbudo bem ultrapassado, como são todas as filosofias que, para se explicarem, exigem mais do que 240 caracteres. Ou seja, no imaginário juvenil de shopping, aquele velhinho que viveu no século XIX e falou alguma coisa sobre o comunismo, ou socialismo, "naquele lance tipo de tudo que é teu é meu também".

Brincadeiras à parte, quem leu O Capital (de verdade!) e o entendeu, sabe que não minto quanto a Marx ser um estudioso do capitalismo. Homem de método, Marx compreendia que para derrotar o que considerava inimigo há de se estudá-lo. Mas Marx foi um só, os que vieram depois dele, pensadores menores, dirigentes partidários anões, enfim, os sectários de seitas, tentaram apenas pensar num sistema que suprimisse de vez o grande Leviatã do proletariado: o mercado capitalista, em que a mão-de-obra poderia ser comprada e ou vendida de acordo com as necessidades das linhas de produção das fábricas. Porém, enquanto pensavam a revolução do proletariado, nunca alcançada de fato, nossos descuidados marxistas foram engolidos pelo mercado capitalista.

É bom que se diga, que essa "revolução-proletária-libertária" sempre foi fagulha em palha molhada, seus pífios resultados foram apenas alguns arremedos de estados totalitários "socialistas", autoritários na essência (ditaduras do proletariado, sem proletários, é lógico!), firmados na propaganda da liberdade, porquanto a suprimia, em função de suas deficiências insuperáveis e desvios doutrinários e ideológicos, como o culto à personalidade, a criação de castas dirigentes corruptas e a distribuição da miséria.

A fogueira revolucionária só fez fumaça porque seus ideólogos não entenderam o conceito básico de Marx, entre outros, da reificação (res, no latim, coisa), processo de "coisificação" do abstrato que, em suma, tende dar um valor de troca para tudo, no sentido de transformar a "coisa" em mercadoria, mesmo que inútil, sob o aspecto prático. - Sim, senhores, o mercado de consumo impera e exige mercadorias novas de meia em meia-hora, seja qual for, inclusive as próprias ideologias, vendidas nas feiras como bananas, ao gosto do freguês!

Se, por um lado, os "marxistas" não entenderam a reificação, por outro, os capitalistas a entenderam muito bem. Assim, por regra, tudo que é "revolucionário" pode ser e deve ser mercadoria; ideias vendem bem, eis a máxima do mercado de consumo moderno. A diferença é que, no século XIX, a manufatura estava voltada para as necessidades reais - um abridor de latas era fabricado e vendido porque as pessoas precisavam abrir latas, com o preço desse abridor sendo regulado pela Mais Valia embutida nele e a necessidade pelo seu valor de uso.

Em nosso tempo,  o processo parece ser o mesmo, mas só parece, pois ganhou eficácia. Em vez dos simplórios abridores de latas, a "coisificação" ficou mais sofisticada. Agora, o capital agrega valor e dá preço a coisas com pouco valor de uso aparente, abstratas por excelência, mas suficientes para formar novos nichos mercadológicos, apoiados pela propaganda, publicidade e marketing - em outras palavras, num mundo saturado por mercadorias de todo o tipo, há de se criar necessidades no indivíduo ou grupo, como descritas brilhantemente pelo psicólogo norte-americano Abraham Maslow (1908-1970), em sua escala das necessidades humanas.

Exemplo disso tudo não nos faltam. Vamos citar apenas um e será o suficiente. Apanhe-se, pois, o movimento da contracultura dos anos 1960, e dele o movimento Hippie. A princípio, combatido pelos capitalistas conservadores, mas depois incorporado ao mercado, em aparente contradição. O Hippie, do real ao abstrato, foi rapidamente absorvido por uma nova indústria, que transformou em mercadoria seus ideais contraculturais, criando uma nova "cultura" de consumo. Quase que de imediato, com o auxílio da propaganda, tornou-se bacana, "bárbaro" mesmo, transformar-se num riponga de fim de semana: usar uma calça boca de sino produzida em série; o slogan "Paz e Amor", em camisetas; consumir tecidos coloridos; curtir a psicodelia musical industrializada por grandes gravadoras multinacionais; frequentar festivais contra o sistema, mas perfeitamente ajustados ao sistema, inclusive pagando caros ingressos. Enfim, no início dos anos 1970, o jovem que fugia das garras dessa nova indústria da insubordinação ingênua, estava morto, não vivia.

Com o tempo a fórmula foi melhorada. Agora, estenda isso para os modismos de nosso tempo, fabricados pelos próprios capitalistas e negue a existência de uma indústria da transformação de ideologias em mercadorias para cada gosto. O capitalismo vence, não por combater o que lhe pode corroer, mas por conseguir a mágica da alienação, a mágica de dar valor de uso e valor de troca ao utópico; o sonho ganhou seu preço e está nas prateleiras, para obtê-lo basta um cartão de crédito, mais nada. O socialismo perde porque vende o sonho mesmo para quem não tem dinheiro, mas não o entrega.

domingo, 22 de julho de 2018

O escritor Gorki foi condenado à morte por não enaltecer a U.R.S.S.

José Fernando Nandé


São terríveis certas palavras e expressões. Alma e Espírito, por exemplo. Dizem muito, entretanto sem se explicarem. Por desgraça, estes espectros da realidade habitam outros mundos, etéreos por certo, dos quais só temos vagas e imprecisas notícias. Em literatura, essas duas palavras teimam em existir, mesmo que o autor nunca delas faça uso. Em Alexei Pechkov, nosso “amargo” Gorki (foto), encontramos vários espíritos que habitam sua obra. Na maior parte, espíritos de revolta contra a condição humana, porém de profundo respeito ao que nos faz humanos.
No Brasil, temos dois notáveis textos sobre este escritor russo, um de Carpeaux e outro de Cony, que buscam desvendar o espírito — ou espíritos — de Gorki que, aliás, ele mesmo esboçara em “As minhas universidades” por meio da fala da personagem Nicolau, um químico com ares de filósofo.

O espírito de Gorki fundamenta-se na liberdade: “Não esqueças o que já sentes dentro de ti: a liberdade de pensamento é a única, e bem preciosa, liberdade acessível ao homem. E só a possui aquele que, nada aceitando por dogma, explora tudo, aquele que compreendeu bem a continuidade da evolução, o seu movimento infatigável, a perpétua mutação dos fenômenos ”, ensinou-lhe Nicolau.

Leon Tolstoy e Gorki
Otto Maria Carpeaux ocupou-se em situar Alexei Pechkov na linha do tempo. Para Carpeaux, ele simplesmente descobre um mundo novo na literatura russa. Gorki nascera pobre e ficara órfão aos nove anos. Em decorrência, foi aprendiz de sapateiro, pintor de ícones, faxineiro, cozinheiro de navio e padeiro, enquanto aprendia as letras por conta e tornava-se escritor. Tudo isso intercalado por andanças intermináveis pela Rússia czarista. Mas tendo uma vida assim, digamos, para lá de miserável e incerta, o que Gorki descobriu? Ele descobriu um povo não menos miserável do que ele e que poderia habitar como protagonista as páginas de seus livros. Ele descobriu a alma do povo que aparecera até então nas obras literárias como apêndice de dramas, geralmente pessoais, de uma nobreza moribunda e de uma burguesia emergente e entediada. Carpeaux observa que nos escritos de Gorki não há lugar para os aristocratas e latifundiários,  muitas vezes com sentimentos de culpa, como em Tolstoi e nas peças de Tchekov. Não há espaço também para burocratas, tiranos e corruptos como em Gogol; ou ainda para os camponeses (“muchicks”) idealizados, quando não santificados, pelos escritores russos. A obra de Gorki trata fundamentalmente dos vagabundos e desempregados, desajustados que vagavam pelas cidades e estepes da Rússia. Mas o genial é que Gorki traz à luz não somente este “lumpemproletariat” que buscava na vagabundagem uma opção de vida, talvez a única naquela Rússia pré-industrial. Ele traz também um tipo diferente que não costumava freqüentar as salas de tipografia em que os livros eram compostos. A genialidade de Gorki está em mesclar os personagens do lumpemzinato aos desertores da vida — pelo menos da vida como pensamos que é, com regras, códigos, licenças para respirar e cuspir.

Em o “Vagabundo Original”, somos apresentados ao Dr. A. P. Ruminski, médico que morreu entre os mendigos. Um homem que, sem ficar demente, simplesmente resolveu viver os últimos anos de sua vida segundo sua própria filosofia. Ruminski agrada a Gorki porque, no fundo, ambos compartilham praticamente do mesmo pensamento. Para o médico, a felicidade está em o homem ter-se inventado bem a si mesmo e amar a sua invenção. “Amar-se a si próprio pode fazê-lo um porco, um cão, qualquer animal. Faz-se por instinto! O homem, contudo, apenas deve amar aquilo que ele mesmo criou para si.” E Gorki pergunta-lhe: “E o senhor o que ama?”.
“O meu amanhã (...) Tenho a ventura de não conhecer o que ele será”, respondeu-lhe o doutor, que se guiava por uma moral fatalista. “Eu sou um condenado à morte, tenho o direito de viver ao meu modo. Não preciso para nada das leis humanas, visto que igualmente para mim a lei natural da geral destruição é obrigatória.”

Gorki e Stalin
Por outro lado, a análise de Carlos Heitor Cony tenta captar o espírito político de Gorki, que viveu no período mais intenso das transformações sociais, culturais e econômicas da Rússia. Alexei Maximovitch Pechkov nasceu em 1862 em Nijini-Novgorod. Aos 36 anos ele aparece para a literatura em definitivo e ganha o coração do povo russo, em todas as classes sociais. Vivendo na época violenta e tirânica dos czares, atravessando alguns movimentos revolucionários fracassados, como o de 1905, ele abraçou o socialismo, sendo preso e condenado à morte. Foi salvo por um grande movimento internacional de intelectuais.
Taxado equivocadamente de “pai da literatura proletária”, Gorki é julgado pela Academia Comunista, organismo máximo do pensamento soviético, em 1927. A tola questão: ele era ou não um “escritor-proletário”? A Academia decidiu que não, mas por sorte, Stalin ignorou esta picuinha acadêmica, talvez simplesmente por gostar do que escrevia Gorki, ou por saber das antigas divergências entre o escritor e Lenin.

De acordo com Cony, Lênin e Gorki foram socialistas, à maneira deles. “Em Gorki, o socialismo não passa a sua fase primitiva: amor aos homens, confiança no homem — aquele cristianismo eslavo que talvez mereça o nome de russismo. Gorki não aceitava, sobretudo, o problema da consciência, tal como Lênin o expunha. Para Lênin, a consciência era um produto do ser social, ao passo que Gorki acreditava que o ser social era um produto da consciência. Lênin era um erudito, homem disciplinado intelectualmente, amante feroz da lógica e da razão. Gorki, o autodidata contraditório e sentimental.”

E é justamente neste ponto que encontramos o verdadeiro espírito gorkiano: humanista por excelência e, sobretudo, sentimental. Suas personagens, mesmo as comprometidas com as lutas sociais, como as encontradas na peça “Pequenos Burgueses”, aparecem duras num realismo sem precedentes, todavia com seus corações envoltos pela mais pura ternura.

Em “As minhas universidades”, que não vou classificar como biografia de Gorki, pois me parece que quase tudo que ele escreveu está nesta categoria, encontramos belas descrições feitas a partir de uma visão deliciosamente humana: “Os Evreinov, mãe e dois filhos, viviam de uma pensão miserável. Logo nos primeiros dias observei a tristeza trágica com que a pobre viúva, de estatura pequena e apagada, estendia sobre a mesa da cozinha as compras insignificantes que fizera no mercado, procurando solucionar este difícil problema: como tirar de tão insignificantes pedaços de carne de terceira, quantidade suficiente de boa alimentação para três rapazes saudáveis, sem já contar com ela mesma. Taciturna, os seus olhos cinzentos refletiam a teimosia doce e resignada do cavalo esgotado pelo trabalho excessivo: o pobre animal arrasta a carroça na ladeira; sabe que não chegará ao fim, mas continua”. Notem que nesta descrição, dentre tantas outras presentes na obra de Gorki, não há nada de panfletário, de comunista, nem mesmo uma única linha na tentativa de explicar as causas da miséria dos Evreinov. Gorki apenas constata o sofrimento e usa para tal aquilo que o transformou num dos maiores escritores do século XX, o olhar do coração em conflito com a realidade.

O lado sentimental do autor de a “A Mãe” aparece mais nitidamente associado às mulheres. Bachkine, outro personagem de “As minhas universidades”, ladrão profissional, ex-aluno da escola normal, tuberculoso, “mais de uma vez impiedosamente espancado”, aconselhava Gorki: “Pela mulher, faria fosse o que fosse. Para ela, como para o demônio, o pecado não existe. Viver a amar, ainda nada se inventou de melhor.”
De certa maneira, o conselho do ladrão profissional calou fundo na alma do escritor. Quase no final de suas memórias, ele dedica um capítulo especial para o seu “Primeiro Amor” e num momento de reflexão emenda: “Quando não se sabe, inventa-se, e o que o homem inventou de mais sensato, foi amar a mulher e adorar a sua beleza; é deste amor que nasce tudo quanto é mais belo no mundo”.

Certamente celibatário, ao 23 anos Gorki conta ter conhecido Olga, dez anos mais velha, casada e que tinha uma filha, fruto de outro relacionamento. No início, ele alimenta-se de um amor platônico. Depois, patético, como todo amante deve ser, se declara em poemas e bucólicos passeios pelo lago. Neste episódio, Gorki não fica devendo nada aos escritores românticos: crises existenciais, medo da rejeição, o conflito moral de sabê-la casada etc. Porém, mesmo neste aparente e necessário pieguismo literário, o escritor não deixa seu velho estilo realista. É como se seu coração fosse ritmado por um batuque de alegria e esperança e a vida por ruídos de espanto e horror.

Olga é instruída, bonita e inteligente, um verdadeiro imã para que hoje chamamos cantadas, entretanto pobre. Vive como a maioria do povo russo, em dificuldades. O marido é preguiçoso e indolente. Sujeito que não se envergonha de ver a mulher se matar de trabalhar, às vezes como criada e cozinheira, às vezes como desenhista de retratos.

Gorki não pestanejou em convidá-la para viverem juntos. Ela faz suspense, não diz sim, nem não. Ele parte para outra cidade e ela fica. Depois de três anos há o reencontro. Desta vez Olga se decide e vai viver com o jovem escritor.

Os três, pois a filha de Olga também os acompanha, passam a morar numa casa úmida, fria e ruim. Pelo que parece, pois não temos a medida do tempo neste capítulo de Gorki, por um longo período eles fazem as refeições na casa do diabo, com o pão amassado pelo próprio, é claro. E o que enternece o escritor é que neste tempo todo, Olga não reclamou uma única vez da triste situação.
Não brigavam, mas discordavam no modo de encarar a vida. “Filosofas demais”, dizia a mulher ao novo marido. “A vida, no fundo, é simples e brutal; não devemos complicá-la, procurando nela um sentido extraordinário; o que devemos é aprender a suavizar-lhe a brutalidade. Mais do que isso, não conseguirás nunca. (...) O amor e a fome governam o mundo, e a filosofia faz sua desgraça. Vive-se para o amor, é o que há de mais importante na vida”, dizia Olga.

Num dia qualquer, o escritor descobriu o que quase todos descobrem e que só ousamos contar com todas as letras no século XX: o amor é chama. Somente o compartilhar diário do travesseiro para se conhecer a natureza dos elementos que extinguem este fogo.

Felizmente ou não, a sociedade industrial desobrigou os homens e as mulheres dos compromissos eternos. Atores coadjuvantes desse tempo bárbaro — movido pela máquina e pelo pragmatismo até mesmo no amor —, dois fatos foram suficientes para que eles se separassem. O primeiro, o mais terrível: Olga dormira enquanto Gorki lia um de seus manuscritos ao pé do seu ouvido. O segundo, e a gota d’água: foi quando o escritor chegou em casa transtornado depois de ter presenciado um policial espancar covardemente um judeu no mercado. “Quando lhe falei no judeu espancado, mostrou-se muito surpreendida: — E é isso que te deixa maluco? Que nervos tão frágeis os teus!”.

Gorki teve outras mulheres e parece ter amado de verdade somente a primeira. Ele morreu em 1936, suspeita-se que vitima de envenenamento. Talvez ele tenha morrido mesmo do mais sutil dos envenenamentos, aquele provocado pela absorção lenta da realidade e deste supremo escândalo que é viver sem se saber explicar. 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Dos Beatles ao bate-estaca - o ruído vendido como música e cultura

José Fernando Nandé



No dia 26 de setembro de 1969 era lançado o último álbum gravado em estúdio pelos Beatles, Abbey Road. Sim, os Beatles lançariam ainda Let It Be, oficialmente o último a chegar ao mercado, mas que foi gravado meses antes das sessões que deram origem a Abbey Road. Bom, isso é história para ser discutida em liturgia de boteco, para os que ainda têm fígado em pleno funcionamento, é claro! A pergunta é: o que veio depois, em qualidade, com alma, no mundo pop?

Respondo: pouco ou nada. Estão aí os shows e festivais nos mostrando o retorno dos velhinhos com suas guitarras e bengalas, que nos fazem crer que a boa música pop se esgotou no final da década de 1960, ou no início da década de 1970. Talvez, a efemeridade da música pouco criativa que se seguiu, também possa, e deve, ser explicada pela máquina de moer carne chamada "indústria cultural", ávida por novos produtos na prateleira, em velocidade digna do mundo industrial idealizado por Ford e, atualmente, aprimorado pelo Toytismo dos japoneses, ou à computadorizada indústria 4.0, presente em todas as fábricas do mundo da competição, em que a arte não é mais importante do que um parafuso.

Caminhou-se assim, até o nosso tempo, para o esgotamento do modo de se fazer música em escala para o consumo, a tal ponto que essa própria indústria obrigou-se a "reciclar" antigos sucessos, pois nem ela aguentava mais tanta porcaria. É isso, porcaria forjada justamente na exploração da falta de cultura de seus consumidores, que adoram o ruído, o bate-estaca, com nome de música, em letras sofríveis e óbvias. Afinal, as variações de três acordes é limitada e até que durou muito. Na realidade, essa indústria tem uma única cultura traduzida no ganhar dinheiro, a pop grana, mais nada.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Vinicius e Tom, a poesia e a música com todo o respeito

José Fernando Nandé

Vinicius e Tom Jobim, uma parceria que procurava não maltratar os versos nem a música
Gosto de efemérides, datas que são chamadas para a memória. Algumas não muito boas, outras ótimas em lembranças. Esta por exemplo, que antecipa um pouquinho os 105 anos do aparecimento de Vinicius de Moraes. Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1913. Não vou focar este pequeno escrito na sua trajetória de vida, por demais conhecida e de fácil acesso em sítios especializados na internet. Pretendo aqui apenas destacar o perfeito casamento de sua poesia com a música.

Vinicius quebrou vários paradigmas musicais e poéticos ao colocar a poesia a serviço da boa música. De tal sorte, que a expressão letrista-compositor ganhou o mesmo status de poeta. Pois havia, e ainda há, um certo incômodo entre os poetas ao se rabiscar poemas e depois musicá-los. Parte desse incômodo se explica no modo de se fazer música, que pode ser a princípio de três formas - a partir da melodia, a partir da letra e ou na conjugação das duas primeiras num único ato, em que se reúne músico e o que faz a letra, a poesia propriamente dita.

No Brasil, a forma mais comum dentre as apresentadas é a da composição a partir da música o que, para alguns poetas, empobrece a poesia, porque são necessárias concessões líricas para satisfazer a melodia - como as rimas pobres, geralmente com verbos no infinitivo etc.

Pois bem, a sorte de Vinicius reside justamente no seu bom conhecimento musical e, principalmente, na capacidade de encontrar parceiros que compreendiam o fazer poético, além de serem excelentes músicos  e arranjadores.

Dentre as parcerias de Vinicius há de se destacar a que foi feita com o maestro Tom Jobim, que em depoimentos deixava claro que pelo menos uma vez colocou a melodia em segundo plano para não estragar o poema - caso do Soneto da Separação.

Outro feito notável de Tom, foi arranjar a Valsa de Eurídice -- poema que qualquer músico duvidaria que pudesse ser musicado, pois contém apenas quatro versos não metrificados e terminando com um simples adeus.

VALSA DE EURÍDICE

Oh, meu amado não parta
não parta de mim
Há uma ternura que não tem fim
Adeus

Letra aparentemente singela, em que se atribui a música também a Vinicius, mas que toma grandiosa forma na partitura de Tom e na bela interpretação de Paula Morelenbaum, em agudos 2 minutos e 14 segundos de gravação, no álbum Tom canta Vinicius.   

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Matemática mostra desordem do STF

José Fernando Nandé




Muita gente jura que a Matemática e o Direito são apartados de nascença. Ou seja, são azeite e água, não se misturam. Mas o matemático Lawrence Sirovich, da Escola de Medicina de Mount Sinai, na cidade de Nova York, provou recentemente que é perfeitamente possível fazer uma análise matemática dos vereditos (acórdãos), totalmente imparcial e objetiva, mesmo para tribunais que vão além das interpretações legais e avançam para o nebuloso campo dos acertos políticos, de esquerda ou direita, conservador ou liberal. O trabalho que ele fez é modelar no que tange à matemática, ou seja, pode ser reproduzido na análise de qualquer tribunal, em qualquer país.

Em artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, Lawrence mostra ter estudado detalhadamente 500 decisões (acórdãos) tomadas pela Suprema corte Norte-americana - com 9 membros - entre os anos de 2009 e 2012, quando presidida pelo juiz Willian Rehnquist. A pesquisa está firmemente sustentada nas teorias da Entropia, termo de origem na termodinâmica e que designa a extensão da desordem que existe num sistema - num cristal de gelo, em que as moléculas estão "congeladas" a entropia é pequena, no vapor, a entropia é grande, ou seja a "desordem" comanda o sistema.

Em 1940, outro matemático, Claude Shannon, aplicou os conceitos da entropia à teoria da informação, ponto de partida da pesquisa de Lawrence. As premissas hipotéticas usadas por Lawrence para a análise matemática da Suprema Corte foram duas: 

Uma corte de juízes oniscientes, com o conhecimento da verdade absoluta. Logo, suas decisões seriam unânimes (no caso brasileiro, toda votação terminaria 11 a zero, pois ninguém - hipoteticamente - estaria sob a influência da política ou outro fator que causasse distorção nas decisões); 
No outro extremo, um tribunal em que cada um tivesse a sua verdade e votasse de forma diversa. 

Na teoria da informação, entropia se refere à quantidade de informação que existe num sinal. A entropia no caso dos juízes seria pequena, em votações unânimes e grande em votações diversas, ou seja, em grande desordem. Com isso, num tribunal unânime, segundo a teoria da informação, a entropia (quantidade de informação) é bem pequena, pois basta os membros da corte seguirem o entendimento de um único juiz, o relator, por exemplo. No caso de cada juiz votando de sua forma, a quantidade de informação seria enorme e as discussões tenderiam a se estender até o esgotamento de todos os argumentos favoráveis ou não favoráveis a uma causa.

No caso norte-americano, o matemático constatou que 50% das sentenças analisadas pela Suprema Corte, no período considerado, foram unânimes. No restante, o trabalho de Lawrence demonstrou que 4,68 juízes, de um universo de 9 membros, tomaram suas decisões independentemente um do outro, e outros 4,32 votavam de forma uniforme. Certamente uma corte dividida em algumas causas, mas não em todas as causas e somente na interpretação da lei e não sob os efeito de pressões políticas, como aqui acontece.

Ora, no caso brasileiro, sem fazer contas, apenas com uma hipótese empírica, verificaremos facilmente que a entropia reinante é de desordem, sobremodo se fizermos uma análise comparativa entre o comportamento das turmas e do pleno de nossa Suprema Corte. Na realidade, caso algum matemático brasileiro tivesse tempo para perder com essa gente, veria que ali não se segue um comportamento que possa ser medido com segurança pela matemática. Necessariamente teríamos que desenvolver teorias sobre variáveis bizarras, como Gilmar Mendes, Toffoli e Ulandowski, que não seguem padrões somente legais, mas que tangenciam o insulto à inteligência, movidos, sabe-se lá, até mesmo por forças ocultas. E a matemática ainda, pelo que se sabe, não se ocupa do oculto. Esperemos, pois, esse oculto ser revelado.


terça-feira, 17 de julho de 2018

Em que dimensão você vive? - Física


José Fernando Nandé




Lembro-me muito bem de certa noite do ano letivo de 1985 (preparávamos para a passagem do cometa de Halley, em fevereiro de 1986, quando cheguei até a passar por dificuldades para adquirir um pequeno telescópio). Nessa noite, a aula no Centro Politécnico da UFPR era de Geometria Analítica e Álgebra Linear, o quadro-negro estava lotado de equações derivadas e integrais para responder ao problema proposto: quantas dimensões existem? – Depois de três horas de formalismo matemático, chegamos à resposta teórica mais simples possível: “n”. Ora, em matemática o “n” quer dizer qualquer número imaginável, no caso, maior que zero e inteiro. Hoje, os físicos vislumbram de 9 a 11 dessas dimensões e nós, em nosso mundinho cúbico e euclidiano, nos acostumamos a viver com apenas três delas: extensão, profundidade e altura. E é desta maneira que boa parte das almas vê o mundo. Galileu Galilei (1564-1642), Isaac Newton (1643-1727) e todos os viventes que vieram depois deles até o início do século passado estavam presos nesta gaiola tridimensional do geômetra Euclides (360-295 a.C), que explicava com certa racionalidade e satisfatoriamente o mundo. Todas as verdades cabiam neste sistema espacial e por ele eram explicadas.

Felizmente, o espírito do homem não aceita verdades eternas, duvidou da verdade do quinto postulado de Euclides, aquele das retas paralelas, e elaborou as geometrias não-euclidianas, ponto de partida para Albert Einstein (1879-1955) desenvolver suas modernas teorias. A partir de Einstein ficamos sabendo que a matéria não passa de energia condensada e que o espaço tinha mais um companheiro, o tempo. Uma enorme mudança no nosso modo de ver o mundo, porque teríamos que aceitar coisas como o limite da velocidade da luz, o Universo curvo e paradoxos dos mais diversos, como o dos gêmeos, em que um deles, numa suposta viagem espacial, com velocidade bem próxima a da luz, simplesmente retornaria ao planeta mais novo do que o gêmeo que aqui ficou.

É evidente, que grande número de pessoas não consegue conjugar essa nova dimensão dentro do seu mundo conhecido e isso nos parece muito natural. Nesses não mais de 10 mil anos de processo de aquisição de conhecimento, em que desenvolvemos a escrita e deixamos de polir pedra para trabalhar com a eletrônica, somente na última centena de anos é que passamos a “treinar” para a percepção das quatro dimensões. Por milhares de anos, tudo em nós tem funcionado para o mundo cúbico. Nossos sentidos, por treino de gerações, só percebem a realidade objetiva tridimensional do instante a ser processado em nosso cérebro. Depois, o cérebro organiza essas percepções sensoriais, separa o que lhe parece útil, e as guarda naquilo que chamamos memória, que nada mais é do que um arquivo de instantâneos perceptivos não lineares, prontos para serem evocados a qualquer tempo. Ou seja, nosso treino nos ensinou a lidar relativamente bem com o que passou e com o que acontece no presente, porém ainda não nos ensinou a perceber o futuro, um dos componentes do tempo.


Representações 4D, notem que apenas acrescentamos mais um ponto aos tridimensionais
  
Ainda não compreendemos o tempo em todas as suas possibilidades, assim como o homem primitivo não compreendia as causas do raio e do trovão, somente seus efeitos geralmente nocivos para ele. Heródoto nos conta que havia um povo que atirava lanças contra as manifestações desses fenômenos meteorológicos, na vã tentativa de afastar deuses que os provocavam. E assim se dá por toda nossa história, tudo aquilo que não conseguimos entender é imediatamente encaminhado ao departamento do sobrenatural para ser alvejado pelas lanças do preconceito e incompreensão, para não dizer ignorância mesmo.

É de se imaginar como seria o mundo de hoje se algum feiticeiro, ao ver o fogo, tivesse dito aos de sua aldeia que era preciso explicá-lo para depois usá-lo. Certamente, ainda estaríamos polindo pedras em nossas cavernas sem saber que ali, numa inútil e proibida fogueira, tínhamos uma simples reação química combinando carbono com oxigênio. E é dessa forma que estamos lidando com os fenômenos premonitórios, desejamos uma explicação de causa e ignoramos seus efeitos e benefícios. Algo explicável até certo ponto, porque a Ciência ainda se prende ao cartesianismo causal, ao determinismo matemático e que, creio, deixaram esse mundo há muito tempo.

É sabido que utilizamos percentual mínimo da nossa capacidade cerebral (algo em torno de 10% a 20%), assim como é sabido que a natureza não costuma deixar espaços em branco nos organismos que se desenvolvem sobre o nosso planeta. No estudo da Evolução, verificamos que órgãos sem função ou utilidade são sacados dos organismos vivos. Então, é de se pensar a que, e para que, serve este grande vazio em nossos cérebros. Ora, o raciocínio em resposta nos parece lógico, já que utilizamos uma pequena parte dele na percepção do mundo tridimensional, o restante estaria disponível para diversas funções para as quais ainda não temos o entendimento perfeito – outras dimensões, por exemplo, ou a chamada Percepção Extrassensorial (ESP), do inglês Extrasensory Perception. Novamente apelo para o raciocínio lógico, quando aprendemos a falar e a escrever, o cérebro já estava preparado para isso, de tal sorte que, quando aprendermos a estabelecer contato com outras dimensões, o cérebro também estará preparado para tal.

Recentemente, a comunidade científica torceu o nariz para as pesquisas do renomado psicólogo e físico Daryl J. Bem (1938-) publicadas no Journal of Personality and Social Psychology e que aqui no Brasil mereceu matéria e chamada da capa da revista semanal “Isto-É”. Em sua pesquisa, Daryl relata nove experimentos feitos com mais de mil universitários e que comprovariam a existência do fenômeno ESP.

“Segundo Bem, em oito dos nove experimentos houve um índice de acerto acima do que é considerado coincidência ou obra do acaso. Também foi feito um teste no qual o aluno escolhia se queria arriscar mais nas respostas ou se desistia de tentar. ‘Os que aceitaram correr mais riscos foram os que tiveram mais acertos’, conta Bem. O psicólogo é cuidadoso ao tirar suas conclusões, mas acredita que todo mundo pode ter capacidades precognitivas, embora uns as tenham mais desenvolvidas do que outros. Também explica que as percepções extrassensoriais são frutos do processo evolutivo no qual antever situações de perigo ou propícias à reprodução se tornaram vantajosas ferramentas de sobrevivência. Isso ajudaria a comprovar a existência de premonições.” [Isto-É, 9/03/2011].

Como disse anteriormente, a sociedade científica ficou atônita diante das conclusões de Daryl J. Bem. Os questionamentos são vários: o método de aferição dos resultados; os instrumentos utilizados etc. Na realidade, os detratores de Daryl não se contentam somente em ver a ferida nas mãos do crucificado, eles desejam tocá-las. É como se um médico nos dissesse que estamos com febre e que ela existe de fato, mas o culpado pela febre seria o termômetro por estar mal ajustado e não a doença.

Aqui, ao finalizar este comentário, fico satisfeito em apenas ver de longe a ferida, sem querer por meus dedos nela. Para que bem me entendam, contento-me somente em aquentar-me ao lado da fogueira sem querer explicá-la. Dedico-me, portanto, aos efeitos e não às causas e deixarei aos que a isso não compreenderem, a liberdade de arremessarem suas lanças no raio e no trovão que os incomodam.

Tempo, esta é a chave para começar a entender os fenômenos precognitivos. Tempo, esta é a dimensão que ainda não entendemos em plenitude e em todas as suas possibilidades. É de se pensar que uma parte dos pretensamente sábios refuta o fenômeno precognitivo porque de antemão essa parte já se deu por vencida na total incompreensão do tempo. Esses pobres e infelizes de espírito são capazes de aceitar com uma fé cega e resignação bovina, as possibilidades científicas da viagem no tempo – para o passado e para o futuro – e igualmente, com a mesma facilidade, fé e resignação, são incapazes de entender as intuições que lhes chegam todos os dias depois de uma boa noite de sono.


sábado, 14 de julho de 2018

As mulheres dos poetas - Literatura

Dante viu somente duas vezes Beatriz em vida. 
Dante amou Beatriz e a transformou na musa da musas ao eternizá-la na Divina Comédia. Consta que o poeta a viu não mais do que duas vezes e dela não obteve palavra, somente um sorriso. Beatriz morreu jovem e Dante casou-se. Com o tempo, o poeta descobriu que havia escolhido mal, sua mulher tinha o comportamento vulgar e era o que hoje chamamos de fofoqueira. Assim, voltar para casa para ele tornou-se um martírio. A vingança de Dante, creio, foi nunca ter citado a megera em seus versos.
II
O poeta John Keats descrevia assim a paixão de sua curta vida, Fanny Brawne: "Carece de sentimentos em todos os traços (...) A boca é má e boa. Os braços são belos, as mãos um pouco feias e os pés toleráveis. Porém é ignorante, de conduta monstruosa (galinha), fugindo em todas as direções". Mas, Keats não deixou suas impressões sobre a moça depois de sua tragédia pessoal -- Miss Brawne, devotamente, cuidou dele por um tempo, antes de sua morte provocada pela tuberculose.
III
Realmente, um monstrinho que sabia ferir a alma alheia. Poeta satírico, Alexander Pope possuía os braços e as pernas como uma aranha, com peito de pomba e corcunda. Embora galanteador, bem resolvido financeiramente, o que é raro em poetas, Pope tinha dificuldades óbvias com as mulheres por sua triste figura. Apaixonou-se pela Lady Montagu, que o repeliu em escárnio e gargalhadas. Pope jamais a perdoaria e até o fim de sua vida atacou Montagu e seus amigos em versos terríveis. Pope não se casou, mas concedeu seu afeto à Marta Blount, amiga da juventude que, por piedade ou amor, desfrutou até o último dia a intimidade do poeta.
IV
A vida de Edgar Alan Poe foi tão espantosa quanto seus versos. Poe perdeu os pais, foi adotado por rica família e deserdado ainda na juventude, em função de seus vícios. Expulso desonrosamente da academia militar de West Point, não se firmando em emprego algum, casou-se com sua prima Virgínia de 13 anos. Bêbado, jogador e acusado de plágio, Alan Poe rolou definitivamente na sarjeta após vender os direitos de sua maior obra, "O Corvo", por apenas 10 dólares e perder a sua tão amada Virgínia em condições miseráveis. Ela rompera um vaso sanguíneo da garganta numa apresentação de canto e durante seis longos anos agonizou, lançando o poeta num mundo escuro e místico. Poe se entregou definitivamente à bebida e, em breves momentos de lucidez, chegou até mesmo a noivar com viúvas. Morreu num hospital, recitando apenas dois versos inteligíveis: O God!... Is all we see or seem/ But a dream within a dream? -- "Ó Deus!... Tudo que vemos ou julgamos ver/ Não passa de um sonho dentro de um sonho?".