sábado, 30 de junho de 2018

Vocativo e as regência no latim e português

Unidade 1 - Aula III - Professor José Fernando

No início deste milênio, nas escavações para obras de construção da barragem da usina hidrelétrica de Birecik, no sul da Turquia, foram encontradas as ruínas da cidade greco-romana de Zeugma, fundada no século III antes de Cristo por Alexandre, o Grande. Zeugma era importante por sua localização na rota da seda. Pelos inúmeros vestígios arqueológicos, principalmente mosaicos, de rara beleza, a cidade é conhecida por Pompeia turca. 

O VOCATIVO

A função do vocativo é indicar apelo, chamado, do latim vocare, chamar, clamar.
 Pode aparecer no início, ou meio, ou final da oração (sempre acompanhado de vírgula).

Meninos, estudem a lição.”
“Estudem, meninos, a lição.”
“Estudem a lição, meninos.”

Em português, o vocativo ora vem constituído apenas da palavra, ora acompanhado da interjeição “ó”.

Menino, você não tem experiência da vida.”
Ó menino, você não tem experiência da vida.”

Nunca confundir a interjeição “ó” com o “oh!” das orações exclamativas.

Ó meninas, sois lindas.”
Oh! Meninas como sois lindas!”

Portanto:
INTERJEIÇÃO
É a palavra que exprime, subitamente, o nosso sentimento.
As principais em latim são:
o → ó
oh → oh!
heu → ai
vae → desgraçado, infeliz





VERBOS TRANSITIVOS E INTRANSITIVOS

“Toda ação provoca um efeito e todo efeito tem uma causa”

1.      Pedro escreveu uma carta.
Causa: Pedro
Ação: escreveu
Efeito: uma carta (perguntamos: o que Pedro escreveu?)

2.      O pássaro voou.
Causa: o pássaro
Ação: voou
Efeito: nenhum (não perguntamos: o que é que ele voou?)

No segundo caso citamos um verbo de predicação completa (a ação fica toda no sujeito) – VERBO INTRANSITIVO (VI).
Predicação – o verbo é também chamado de predicado, porque atribui, predica uma ação a alguma pessoa ou coisa.
No caso, o verbo (predicado) possui predicação incompleta.

No primeiro caso citamos um verbo de predicação incompleta (que exige pessoa ou coisa para recair) – chamado de VERBO TRANSITIVO (VT).
Essa pessoa ou coisa em que recai a ação do verbo chama-se de complemento ou paciente da ação verbal.
Exemplos: voar, correr, fugir, morrer, andar etc
No caso dos verbos de predicação incompleta, os transitivos, a oração tem três termos, sujeito, predicado, complemento:

“Eu escrevi uma carta.”
Sujeito: eu
Predicado: escrevi
Complemento: uma carta

“Maria ganhou um colar.”
Sujeito: Maria
Predicado: ganhou
Complemento: um colar.


VERBO TRANSITIVO DIRETO (VTD) E OBJETO DIRETO (OD)

1. OBJETO DIRETO – é a pessoa ou coisa sobre que recai diretamente a ação do verbo; este verbo será Transitivo Direto e a ação verbal o OBJETO DIRETO.

Pedro estudou a lição.
Pedro: sujeito
Estudou: predicado

A lição: complemento; no caso, objeto direto.



VERBO TRANSITIVO INDIRETO (VTI) E OBJETO INDIRETO (OI)

Pedro depende do pai.
Não podemos dizer:
Pedro depende o pai.

Neste tipo de oração o verbo depende de uma preposição, no caso “de” que vai se somar ao “o”, resultado em “do”.

Então, na oração:
Pedro depende do pai.
Pedro: sujeito
Depende: predicado, verbo transitivo indireto
Do pai: complemento, objeto indireto.

OBJETO INDIRETO – é o complemento de um verbo transitivo indireto. Vem sempre acompanhado de preposição.

Exemplos de verbos transitivos indiretos:
 Gostar (de alguma coisa)
“Gosto de jiló.”
“Gosto de estudar.”

Obedecer (a alguma coisa)
“Obedeço ao professor.” (preposição “a” + artigo “o”)
“Não obedeço à professora.” (preposição “a” + artigo “a” = à)

Recorrer (a alguma coisa)
“Vou recorrer à justiça.”
“Recorro aos anjos em hora de aflição.”

PREDICATIVO

Temos um predicativo quando o verbo liga uma qualidade ao sujeito. O verbo neste caso é chamado de verbo de ligação e o complemento é chamado de predicativo.

Pedro é bom.
Sujeito: Pedro
Verbo de ligação: é (ser)
Complemento: bom (predicativo do sujeito)

Os colégios são ruins.
Sujeito: Os colégios
Verbo de ligação: são (ser)
Complemento: ruins (predicativo do sujeito)

Notem que o sujeito sempre concorda em número e gênero com o predicativo.

NUNCA chame o PREDICATIVO de PREDICADO.

Principais verbos de ligação: ser, estar, andar, ficar, permanecer etc.


VOCABULÁRIO
et
Sempronĭa
est
Livĭa
Silvĭa
Iulĭa
sedŭla
quoque
sunt
bona
semper
mala
non
severa
colloquĭum
es
sum
estis
sumus

e
Semprônia
é
Lívia
Sílvia
Júlia
aplicada, atenta
também
são
boa
sempre
não
severa
conversação
és
sou
sois
somos



Exercício XII – Leitura de texto: Magistra et discipŭlae

Sempronĭa est magistra. Livĭa est discipŭla. Discipŭlae sedŭlae sunt. Iulĭa et Silvĭa quoque discipŭlae sunt. Discipŭla bona semper sedŭla est. Magistra edŭcat, puellae laborant: Livĭa cantat, Iulĭa recitat, Silvĭa saltat. Discipŭlae malae non laborant. Magistra severa est.
Colloquĭum
Sempronĭa – Est sedŭla, Livĭa?
Livĭa – Sum.
Sempronĭa – Estis sedŭlae, puellae?
Discipŭlae – Sumus.

Exercícios
XIII - Copiar o texto e destacar os predicativos
_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

XIV - Procurar um sujeito para os seguintes predicados:
_______________________ cantat
_______________________recĭtant
_______________________discipŭlae

XV - Traduzir para o latim:
Eu sou uma aluna aplicada
_____________________________________________________
As rainhas são severas.
_____________________________________________________
A menina não é má.
_____________________________________________________
As alunas não são boas.
_____________________________________________________
Nós não somos poetas.
_____________________________________________________


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sexta-feira, 29 de junho de 2018

O homem sensato somente fala do que conhece. Retórica - aula 2


Aula 2 - Prof. José Fernando




Calíope, musa grega da Eloquência



ELOQUÊNCIA - o conceito de Eloquência está intimamente ligado ao conceito de Retórica. Não existe um bom orador sem uma ou a outra, sendo que a Retórica abrange a Eloquência no seu desenvolvimento como método de expressão. A Eloquência é um conjunto de técnicas que ilumina a expressão e determina a pessoa que se expressa de forma fluente, precisa, elegante e persuasiva.

O DOM DA PALAVRA – é comum, ao se observar um bom orador, ouvirmos em meio aos aplausos: “fulano fala tão bem, ele tem o dom da palavra”. Sim, alguns nascem mais desenvoltos e se expressam melhor do que a maioria das pessoas. Mas, mesmo esses que têm o dom da palavra não dispensam estudos para se fazerem melhores ainda.  
Na realidade, todos têm o dom da palavra, mas infelizmente, por um fator ou outro, sobremodo a timidez e a falta de boa formação escolar, não o desenvolvem e se sentem satisfeitos em abrir a boca somente para monossílabos ao telefone. Além disso, existem as questões cultural e educacional, em que o aluno brasileiro praticamente não é convidado a se expressar, tomando para si apenas uma atitude passiva em sala de aula. A educação em nosso país é falha nisso, pois não oferta disciplinas para o aperfeiçoamento da expressão em todas as suas formas, além da redação escolar, quadrada e óbvia voltada apenas para os vestibulares, o que é muito pouco.

A PERSUASÃO – a Persuasão, ou convencimento, é o fim da Retórica e a demonstração seu meio. O bom orador ou escritor é aquele que convence ao demonstrar suas ideias e pontos de vista. Pode um orador ou escritor ser provido de grande conhecimento, mas caso  não consiga demonstrar com clareza aquilo que defende, ele será apenas isso, uma pessoa que opina sem convencer. De acordo com Aristóteles, a persuasão é uma espécie de demonstração, “pois certamente ficamos completamente persuadidos quando consideramos que algo nos foi demonstrado". Mais adiante, com o auxílio da Lógica, vamos aprender os princípios da boa demonstração.

Martin Luther King Jr. (1929-1968)
pastor e ativista político estadunidense: dominava perfeitamente a Retórica

FERRAMENTAS PARA CONVENCER – Neste ponto vamos ter que apelar para os gregos, especificamente e novamente a Aristóteles, pois foram eles que cunharam as definições iniciais da Retórica. São três classes de meios de persuasão (apelos à audiência): ethos, pathos e logos, que devem, necessariamente, fazer parte de um bom discurso ou texto.

Ethos – é a forma de convencer o público pelas qualidades e qualificações, como caráter e autoridade. São notórios entre nossos alunos os comentários sobre a desenvoltura deste ou daquele professor em sala de aula: “ele entende a matéria, é uma autoridade no assunto, mas não sabe ensiná-la”, ou ainda: “o professor falou um monte, o tempo todo, e ninguém entendeu nada”. Ou seja, ser apenas autoridade no assunto não é o suficiente, é preciso saber explicá-lo e para todos os tipos de público. Por isso, recomenda-se a verificação antecipada de quem fará parte da plateia que vai nos ouvir. Por exemplo, falar para adolescentes é muito diferente do que falar para adultos, escrever para o público em geral não é a mesma coisa de escrever para iniciados em certos assuntos específicos. 
Um bom artifício, quando aparentemente nos falta autoridade em determinado assunto, é agregar ao discurso citações de autoridades ou instituições especialistas. Demonstrar conhecimento e realmente conhecer o assunto abordado já é meio caminho para o convencimento ou persuasão. Sensato, portanto, é falar do que se sabe, e quando não se sabe, há de se procurar estudar o assunto que estará em pauta, de maneira contrária, o fiasco é líquido e certo.

Phatos – usar a emoção para convencer o público. As escolas de comunicação introduziram no Brasil, inspiradas no marketing e no jornalismo norte-americano, a objetividade. Sim, a objetividade em nosso tempo é importante. No marketing, temos que convencer o máximo de pessoas no menor tempo possível e no jornalismo a mesma pressa é necessária, pois a quantidade de informações difundidas todos os dias é cavalar, forçando o leitor e ou expectador a selecioná-las a partir de mensagens quase que telegráficas.
Num discurso ou texto, as coisas funcionam de maneira diversa. Não se trata de sermos prolixos, mas sim de obedecermos as técnicas de cada forma de comunicação. A Retórica tem suas próprias normas para persuasão e muitas vezes não cabe nela a objetividade em moda.  Grandes oradores, que trabalham com o emocional das pessoas, costumam falar muito e, quanto mais falam, mais o público fica atento a eles. Qual é mágica desses “encantadores de serpentes”? São várias, a principal delas é saber contar uma história, geralmente apoiada em metáforas, capaz de estabelecer uma relação de compartilhamento de experiências emocionais com o público. A emoção é solidária e desconhece os ponteiros dos relógios, fale, escreva e encante.

Logos  o uso do raciocínio na construção de argumentos. No estudo da Lógica vamos abordar com mais detalhes a racionalidade no discurso ou texto. Nada mais constrangedor, além de não dominar o assunto, é orador que não sabe usar a lógica para expor o que pensa. Um absurdo evoca sempre outro absurdo, isso é fato. Caso se parta de afirmação mal formulada ou não provida de verdade, o discurso será desastroso, o que geralmente provoca o riso e o escárnio do público. 
Antes de falar algo, o orador deve estar ciente da verdade nele contido e de seus possíveis desdobramentos lógicos. Iniciar o discurso com algo conhecido e aceito por todos e daí tirar argumentos aceitáveis é o caminho. Há técnica para se conseguir um bom encadeamento lógico do que se fala e se escreve, mas a intuição nunca deve ser desprezada, principalmente diante de situações em que temos que apelar para o improviso. Geralmente, pessoas que possuem o hábito de ler bons livros e periódicos conseguem notável desempenho neste ponto da Retórica, pois podem apelar na construção do raciocínio a tabelas, ou estatísticas ou gráficos, os quais são forjados na lógica matemática, a qual é de difícil contestação. Os conhecimentos de História, Antropologia, Mitologia e outras ciências também ajudam na construção do pensamento indutivo, na busca do objetivo principal da Retórica, a persuasão.

Geometria Plana - Lógica - Axiomas e Postulados - Aulas 2 e 3



Aula 2 - prof. José Fernando



3. Suposições, axiomas e postulados


a) Suposições - afirmações gerais que não serão provadas. São afirmações que devem ser aceitas como verdadeiras para que a partir delas se deduzam outras. Suposições são axiomas ou postulados.

b) Axiomas - são suposições que podem ser usadas na Matemática de forma geral.

c) Postulados - são suposições que se aplicam em ramo particular da Matemática como, por exemplo, Geometria.

4. Axiomas

Ax.1 - Objetos ou quantidades iguais a um outro objeto ou quantidade são iguais entre si.
         
Ou, A = B e C = B implica em A = C.

Ax.2 - Uma quantidade pode ser substituída outra igual em qualquer expressão ou equação. (Axioma da substituição).

Se x = 5 e y = x + 3, então, substituindo x por 5, y 5 + 3 = 8

Ax.3 - O todo é igual à soma de suas partes.

Assim, 10 = 7 + 3

Ax.4 - Um objeto ou quantidade é igual a si mesmo. (Identidade).

Assim, x = x; AB = AB; â = ê

Ax.5 - Somas cujas parcelas são iguais têm resultados iguais. (Adição).

7 Kg = 7000 g
2 Kg = 2000 g (soma)
-----------------
9 Kg = 9000 g

ou,

x + y = 12
x - y  = 8     (soma)
------------
2x     = 20

Ax.6 - Subtrações cujas parcelas são iguais têm resultados iguais.

7 Kg = 7000 g
2 Kg = 2000 g (subtração)
-----------------
5 Kg = 5000 g

ou,

x + y = 12
x - y  = 8     (subtração)
------------
     2y = 4

Ax. 7 - Multiplicações cujos fatores são iguais têm produtos iguais.

Se um livro custa R$ 50,00, três livros custam R$ 150,00.

Ax. 8 - Divisões entre termos iguais têm quocientes iguais. (Divisão).

Se um litro de óleo custa R$ 10,00, meio litro de óleo custará R$ 5,00 e um quarto de litro R$ 2,50.

Ax. 9 - Números iguais elevados a potências iguais dão resultados iguais.

Se x = 5, então x² = 5² ou x² = 25. Se y³ = 27, então raiz cúbica de 27 é igual a 3.

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Aula 3

5. Postulados

Post.1 - Uma e apenas uma reta pode ligar dois pontos.



Post.2 - Duas retas podem se cruzar em um ponto e apenas um ponto.



Post.3 -Uma reta é a menor distância entre dois pontos.



Post.4 - Dado um centro e um raio, pode-se traçar um e apenas um círculo.



Post.5 - Qualquer figura geométrica pode ser movida para outra posição sem alteração da forma e tamanho.



Post.6 - Um segmento de reta possui um e apenas um ponto médio.



Post.7 - Um ângulo possui uma e apenas uma bissetriz.




Post.8 - Por qualquer ponto de uma reta pode-se levantar uma e apenas uma perpendicular a esta reta.



Post. 9 - Por qualquer ponto exterior a uma reta pode-se baixar uma e apenas uma reta perpendicular a esta reta.





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quinta-feira, 28 de junho de 2018

A Lógica e os métodos de prova na Geometria Plana

Aula 1 - Geometria Plana

Prof. José Fernando 


MÉTODO DE PROVA

Silogismos, 
Suposições, Axiomas, Postulados, Teoremas 


Em Matemática, como em toda Ciência, temos que provar nossas afirmações. Para isso, usamos a Lógica.

LÓGICA – (grego, Logos) – É a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicá-las corretamente para procurar e demonstrar a verdade.

Lógica é a "arte de pensar, ou arte de julgar”. (Port-Royal)

Lógica é a “ciência do raciocínio”. (Aristóteles)

Lógica é a “arte da consequência”. (Stuart Mill)


1. Prova por silogismo ou raciocínio dedutivo 


Silogismo, instrumento da Lógica, é o argumento pelo qual, dum antecedente, que une dois termos a um terceiro, tira-se um consequente, que une dois termos entre si.

a) Premissa maior - Estabelece-se uma afirmação geral referindo-se a um conjunto. Por exemplo, a classe dos cães - Todos os cães são quadrúpedes;

b) Premissa menor - Estabelece-se uma afirmação particular do conjunto. Por exemplo, todos os perdigueiros são cães;

c) Conclusão – é a dedução, obtida a partir das premissas. No caso, Todos os perdigueiros são quadrúpedes

No exemplo, vamos usar círculos para ilustrar o silogismo, destacando cada conjunto, em que os elementos aparecem contidos conforme deu-se o raciocínio dedutivo:



2. Observação, medida e experimento não são provas

a) Observação - É por demais conhecido o adágio “as aparências enganam”. De fato, a observação visual, por exemplo, pode nos enganar. Observe atentamente as figuras abaixo. Em cada uma, embora não se pareçam, os segmentos AB e CD são iguais.



b) Medida - Não é exata e sim aproximada, pois depende do instrumento de medida e da habilidade do operador.

c) Experimento - Um experimento possui em si a probabilidade das conclusões serem reproduzidas; depende de situações ou circunstâncias particulares no processo de experimentação. Em Ciência, probabilidade não é certeza.



Exercício resolvido 1 

Cada letra, como A, B, C, etc. representa um grupo ou conjunto. Complete cada afirmação usando círculos para demonstração do silogismo.

a) Se A é B, e B é C, então..........

Solução:

A é C

b) Se C é D, e E é C, então...........


Solução: E é D

c) Se quadrados são retângulos e retângulos são paralelogramos, então:

Solução: Quadrados são paralelogramos.


Exercício resolvido 2 - Escreva a afirmação necessária para completar o silogismo:







NOMINATIVO NO LATIM - SUJEITO NO PORTUGUÊS

Unidade 1 - Aula 2 - prof. José Fernando


Oração é todo conjunto linguístico que se estrutura em torno de um verbo ou locução verbal, apresentando sujeito e predicado. O que caracteriza a oração é o verbo, não importando se tal oração tenha sentido ou não sozinha.

Exemplos: A águia voa./ O menino estudou ontem./ A menina deve estar atrasada.

Sujeito de uma oração: na definição mais simples é o agente (pessoa ou coisa) que praticou a ação imposta pelo verbo: quem escreve; quem olha; quem fecha... Para descobri-lo numa oração, usamos o artifício de perguntar quem ou o que está realizando a ação. A resposta será o sujeito da oração.

Exemplos:

Pedro quebrou o disco.

Pergunta: Quem quebrou o disco?
Resposta: Pedro.
Sujeito: Pedro

Sócrates discorreu sobre a alma.

Pergunta: Quem discorreu sobre a alma?
Resposta: Sócrates.

Exercício IV – Descubra o sujeito nas seguintes orações:

1.      Os romanos honravam seus deuses.
2.      Pedro foi ferido na guerra.
3.      Ao professor e ao pai do menino chegam reclamações dos colegas.

Em latim, a função sujeito corresponde ao caso NOMINATIVO.

Além de sujeito, uma palavra pode ser declinada de seis formas em latim, ou seja, aparecer com terminações diferentes conforme sua função na oração:

1.      O sujeito (nominativo) - nome
2.      O vocativo (vocativo) – apelo, ó
3.      O adjunto nominal restritivo (genitivo) - de
4.      O objeto indireto (dativo) – a, para
5.      O adjunto adverbial (ablativo) – por, pela
6.      O objeto direto (acusativo) – sem preposição

Exercício V – leituraPuella cantat

Puella cantat. Magistra edŭcat. Aquĭla volat.
Puellae cantant. Magistrae edŭcant. Aquĭlae volant.
Discipŭla saltat. Poëta recĭtat. Agricŏla  laborat.
Ranae natant. Reginae regnant. Nautae navĭgant.


Exercício VI – Traduzir o texto Puella cantat (A menina canta).

Exercício VII – Assinale no texto Puella cantat o sujeito de cada oração.

Exercício VIII – No mesmo texto, em cor diferente, assinale o predicado de cada oração.

Exercício IX – Pôr no plural as frases do terceiro parágrafo.

Exercício X – Pôr no singular as frases do quarto parágrafo.


Exercício XI – Escreva e diga em latim as seguintes frases:
As professoras educam__________________________________
Meninas recitam_______________________________________
Um poeta canta________________________________________
Agricultores trabalham__________________________________
O marinheiro nada______________________________________
Um marinheiro nada____________________________________

Pelo que foi visto até agora, você observou:

1.      Em latim não há artigo (em português: o, os, a, as, um, uns, uma, umas);

2.      As orações apresentadas são simples, com apenas sujeito e predicado;

3.      Todos os substantivos (nomes) aqui apresentados terminam em a no singular e ae no plural.

4.      Todos os verbos da leitura terminam em at na terceira pessoa do singular e em ant na terceira pessoa do plural.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O Português e o Latim no Campus de Espancamento




José Fernando Nandé
I. Introdução

Há a discussão entre acadêmicos brasileiros que versa sobre o uso das palavras latinas campus, campi. De acordo com alguns autores e, agora, consultores da lusitana língua, esses vocábulos deveriam ser substituídos pela palavra “câmpus” – ou “campus” apenas – tanto no singular quanto no plural. Tal discussão seria no sentido de trazer para o vernáculo uma palavra supostamente derivada das suas correspondentes latinas campus et campi, hodiernamente usadas no Brasil para designar o território, ou espaço, ocupado por instalação ou instalações físicas de universidades.
Este artigo sustenta que tal discussão é inócua, posto que o nome campus de há muito consta incorporado ao nosso idioma e corresponde ao substantivo campo e respectivo plural campos. Portanto, a posteriori deve-se demonstrar que a tentativa em curso de aportuguesamento de tal palavra está mais próxima de uma aberração linguística do que um acréscimo positivo à língua portuguesa e tudo por obra do equivocado e bárbaro marketing dos manuais de redação dos jornais.

II. O significado de campus

O uso do vocábulo campus, em latim, perde-se na noite do tempo. De possível origem grega, ele aparece em vários textos anteriores ao período Clássico inclusive, depois resiste aos períodos subsequentes da língua latina até o amanhecer no idioma português, inculto e belo, sempre com o mesmo sentido original, determinando um lugar, ou território, ou espaço, em perfeito acordo com os significados atribuídos a este verbete desde que ele é registrado pelos dicionários latinos:
Cāmpŭs, is – jardim, vergel, campo. 1º planície, plaino; campina cultivada, campo, veiga, terreno; produto da terra; 2º superfície igual, lisa, plana; 3º território; 4º Campo de Marte (em Roma), exercícios do Campo de Marte, comícios, assembleias do povo, votações, eleições; 5º campo da batalha, campo, liça, luta, contenda, curso, carreira.
Algumas citações clássicas para campus:
1 – Campos et montes peragrare (M. T. Cicero, 106 a.C – 43 a.C). Percorrer as planícies e os montes. [Dictionnaire Français-Latin, p. 143; 1868].
2 – Pingues Asiae campi (Q. Horatius Flaccus, 65 a.C e 8 a.C ). As férteis campinas da Ásia. [CHARLESWORTH, 1970].
3 – Coerulei campi (T. M. Plautus, 230 a.C – 180 a.C). As planícies azuladas (o mar). [Dictionnaire Français-Latin, p. 143; 1868].
4 – Attollitur unda campus (Publius Vergilius Maro, 65 a.C – 8 a.C) A planura (do rochedo) eleva-se acima das ondas. [P. Virgilii Maronis Opera omnia ex editione Heyniana, p. 731, 2V; 1819].
5 – Campus in quo exsultare possit oratio (M. T. Cicero, 106 a.C – 43 a.C). Campo (assunto) em que a eloquência possa desenvolver-se. [Dictionnaire Français-Latin, p. 143; 1868].
6 –Flubius que irrigat Cordoba, qui dicitur Bete, nascitur in campo Spanie et cadit in mare in oceanum ocidentale; currit milia cccxii. (Nominia Flubiorum, autor desconhecido, por volta de 800 d.C). “O rio que irriga Córdova, que se denomina Bétis, nasce num planície da Espanha e cai no mar no oceano ocidental, corre 312 mil passos.” [FURLAN, p. 308. 2006].
Pelo exposto, nota-se que os escritores latinos situavam campus na segunda declinação, pois esta palavra tem seu genitivo em i.

III. A declinação de campus e o acusativo como caso lexogênico da língua portuguesa

Caso
Singular
Plural
Nominativo
campus
campi
Vocativo
campe
campi
Genitivo
campi
camporum
Dativo
campo
campis
Ablativo
campo
campis
Acusativo
campum
campos

Para efeito desta exposição e de clareza, citemos o seguinte exemplo tirado à segunda declinação, o nome próprio masculino Candidus, i:

Caso
Singular
Plural
Nominativo
Candidus
Candidi
Vocativo
Candide
Candidi
Genitivo
Candidi
Candidorum
Dativo
Candido
Candidis
Ablativo
Candido
Candidis
Acusativo
Candidum
Candidos

Por último, e para os mesmos efeitos, o nome feminino universitasatis (3ª declinação):

Caso
Singular
Plural
Nominativo
universitas
universitates
Vocativo
universitas
universitates
Genitivo
universitatis
universitatum
Dativo
universitati
universitatibus
Ablativo
universitate
universitatibus
Acusativo
universitatem
universitates

Devidamente declinadas, é possível verificar que essas palavras chegam ao português por meio do caso latino acusativo. “Cedo o latim vulgar reduziu esse sistema de desinências (morfemas) de seis casos a apenas um. (...) Na Península Ibérica, os nomes se fixaram nas do acusativo (o do objeto direto). Por isso este se diz caso lexogênico do português (e do espanhol)” [FURLAN, 2006; p. 322].
Nesse ponto não há divergência entre os gramáticos. O que foi explicado pelo professor Oswaldo Antônio Furlan é praticamente o mesmo que é observado pelo professor Napoleão Mendes de Almeida, em sua Gramática Latina: “O acusativo, que é para o português o caso lexicogênico, isto é, o caso de que provieram os nossos vocábulos, termina geralmente em m no singular das cinco declinações. (...) O acusativo plural das cinco declinações termina em s (Por esse motivo é que o plural das palavras portuguesas termina em s)” [2000, p.89].
Logo, ao se colimar a regra geral tendo como parâmetros os casos particulares, em português Candidus fica Cândido/Cândidos e campus fica campo/campos (segunda declinação). Universitas, universidade/universidades (terceira declinação).
Mas essa explicação ainda não é a bastante, porque são tantas as distorções nesse assunto, que ele tem que ser dilatado para o campo da Filosofia, precisamente ao campo da Lógica. Sabemos que a escrita é o sinal da palavra e, por meio dela, o da ideia. Porquanto se faz mister, para o saneamento de todas as dúvidas, a busca pela ideia representativa da palavra campus. Pelas definições dos dicionários verifica-se que ideia geral para campus é lugar (território), locus ou topus (topos, grego). Em latim e no português, assim como em outras línguas, a ideia geral expressa pela palavra pode ser particularizada, para isso basta que a ela se juntem outros complementos que imprimam à palavra dada uma restrição ou uma qualidade distintiva. Ou seja, o adjunto adnominal restritivo, em português, ou o caso genitivo, em latim.
Assim, podemos dizer que “O pensamento de Cândido” carrega a ideia geral de “pensamento”, que é particularizada pelo complemento “de Cândido”, que não é Pedro nem João. Em latim, sensus Candidi (Candidi sensus) – sensus no nominativo e Candidi no genitivo.
Igualmente, a palavra campo guarda a ideia geral de lugar ou território: universitatis campus, campo da universidade; universitatis campi et universitatum campi, campos da universidade e campos das universidades.
Portanto:
Campus da universidade pode ser aportuguesado tranquilamente: Campo da universidade, ou Campos da universidade; ou pela qualidade, campo universitário ou campos universitários.
É o que aconteceu, no português, por exemplo, nos seguintes casos: Campo de Marte; campo de futebol, campo elétrico, campo magnético, campo de estudos, campo de batalha, campo de ação, campo de equitação, campo de força etc.

IV. Há séculos que a ideia campus está incorporada à língua portuguesa

A discussão terminaria no tópico anterior, caso não fossem as insistências de manuais de redações e acadêmicos, que tentam dar uma nova grafia para esses velhos vocábulos que, por séculos, figuram na língua portuguesa.
Vamos dar um pequeno salto neste estudo até alcançar Luiz Vaz de Camões (1524-1580), que no Século XVI forneceu ao idioma lusitano a sua mais sublime obra, Os Lusíadas, publicado em 1572. Examinem o uso da palavra campo nas seguintes oitavas:
“Da Lua os claros raios rutilavam
Pelas argênteas ondas Neptuninas,
As estrelas os Céus acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas;
Os furiosos ventos repousavam
Pelas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.” (Canto I, 58)
"Este, despois, em campo se apresenta,
Vencedor forte e intrépido, ao possante
Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta
Da fera multidão quadrupedante.
Não menos suas terras mal sustenta
O Hidalcão, do braço triunfante
Que castigando vai Dabul na costa;
Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.” (Canto X, 72).
Notem que, ao mesmo tempo em que campo passa para o domínio da literatura portuguesa e do vulgo letrado ou iletrado, o vocábulo latino de origem, ou seja campus, fica restrito aos círculos acadêmicos, determinando o locus, ou topus, da universidade, ou seja, sua localização física dentro de um espaço específico. Coimbra, a primeira universidade portuguesa (1290), ainda hoje dá o nome campus para o espaço físico ocupado pela totalidade de suas faculdades, que estão agrupadas em polos. Tal fato pode ser explicado, posto que, nos sete séculos de existência de Coimbra, em boa parte deles a língua acadêmica foi o latim, assim como em outras universidades da Europa. Para resumir, por séculos, o latim foi adotado pelas universidades como um sistema linguístico e não como uma língua disponível apenas para o fornecimento esporádico de palavras e expressões avulsas.
A Universidade Toulouse (1229) registra a vida no campus em sua página da internet no informativo “La vie du campus”. Outra universidade francesa, a de Paris (1170), igualmente se utiliza da palavra campus. Em Espanha, não é diferente, as tradicionais universidades de Salamanca (1218) e Valência (1499) se identificam a partir de um campus. Na Itália, a mais antiga universidade do mundo, Bolonha (1088), está identificada sob seu aspecto moderno, além-fronteiras, ao mostrar sua grandiosidade no uso de “multicampus”.
Ora, temos aí a tradição supranacional no uso da palavra latina campus e a prova de que o latim ainda influencia a linguagem acadêmica, mesmo depois de não contar mais com o status de língua oficial das universidades, dos acadêmicos, mestres e doutores, enfim, das ciências. Desconhecemos universidades tradicionais que não tenham ab ovo em seus brasões lemas em latim: Dominus Illuminatio Mea – O Senhor é a minha luz – Oxford University (Reino Unido). Veritas Christo et Ecclesiae – A verdade de Cristo e da Igreja – Harvard University (EUA, 1636). Hic et ubique terrarum – Aqui e em todo o mundo – Universidade de Paris (Universitas magistrorum et scholarium Parisiensis, nome oficial em latim). Scientia et Labor – Ciência e trabalho – Universidade Federal do Paraná (UFPR). Scientia Vinces –Vencerás pela Ciência – Universidade de São Paulo, USP (1934).
Aqui cabe uma observação importante no sentido de desfazer a hipótese de que o vocábulo campus deu um “passeio” pela língua inglesa. De acordo com essa hipótese, Campus teria frequentado as universidades do Reino Unido e da América do Norte e somente depois disso retornaria às línguas portuguesa, galega, francesa, espanhola e italiana para identificar o espaço físico ocupado por uma universidade. Pois bem, isso nos parece improvável ao se considerar uma linha do tempo.
Os falantes da língua inglesa incorporaram a palavra campus ao idioma da mesma forma pela qual ela foi incorporada pelos reinos da Europa continental (sobremodo pelos países que têm sua língua originada no latim, em especial os da Península Ibérica: Portugal e Espanha). O latim foi usado desde a fundação das primeiras universidades – e assim deveria ser – igualmente na Inglaterra e depois nos EUA como língua da ciência desenvolvida nessas instituições. Citemos apenas uma prova disso e será o suficiente: Principia Mathematica, obra máxima do físico, filósofo e matemático Isaac Newton, publicada no ano de 1687, no mais puro latim, quase seis séculos depois da fundação das primeiras universidades.
No Brasil, são tardias as faculdades e universidades: Século XIX, as faculdades de Medicina, Bahia e Rio de Janeiro, em 1808; e no Século XX, a partir da Universidade Federal do Paraná, 1912. Desde o começo, nosso ensino superior seguiu a tradição imposta pela cultura acadêmica europeia, sobremodo a portuguesa (no ensino de Medicina, Direito, Filosofia e Teologia, principalmente). Portanto, ao adotar o modelo europeu de ensino, o latim chega ao Brasil como língua natural das faculdades e universidades, com toda a carga sócio-cultural que isso significava e com a apropriação de uma cultura milenar. Portanto, ao se usar campus et campi, nada mais se faz do que dar continuidade à tradição acadêmica de novecentos anos, não constituindo esse uso uma agressão ao vernáculo nacional, mas deferência à primeira língua utilizada na era cristã para tirar o homem da ignorância.
Entretanto, em artigo, a professora Maria Helena de Moura Neves sustenta:
“Outro dado histórico importante, no caso dessa palavra, é que, embora sua forma seja latina, a fonte da importação foi o inglês, e não o latim, do mesmo modo que ocorreu, por exemplo, com a palavra bônus . O inglês, que não é uma língua latina, frequentemente vai buscar palavras no latim para denominação de coisa novas , e as vai buscar no nominativo, o caso em que a palavra aparece no dicionário, já que se trata de um empréstimo, e não de uma derivação histórica, que tem procedimentos naturalmente instituídos no próprio processo (por exemplo, o caso lexicogênico , para o italiano, foi o nominativo, e, para nós, foi o acusativo).”
Pelo exposto até agora, é evidente que não concordamos com a professora. Mas, para efeito de argumentação, vamos dar razão a essa hipótese de importação para a palavra “campus” do inglês. Verifiquem os seguintes pontos:
Primus: não houve mudança no significado da palavra campus, tanto no latim quanto no português, ela indica lugar, ou território e, no caso, da universidade, ipsis verbis.
Secundus: a palavra universidade é a que foi modificada. Ela é tão antiga quanto campus no latim, mas não com o significado que tem agora, o de universidade propriamente dita. Ela deriva do adjetivo universus, a, um (unus et vertere): todo, toda terra, o mundo inteiro. Universitas, atis é feminina e significa universidade, totalidade, o todo; companhia, corporação, comunidade, colégio, associação, sociedade. Universitas generus humanus – O gênero humano todo (Cícero).
Tertius: campus veio para o português como campo e significando lugar ou território; logo, com esse significado, usa-se sempre no aportuguesamento de campus o seu caso lexogênico, que é o acusativo.
Quartus: caso esta hipótese da “importação” do inglês estivesse correta, vejam que teríamos mais confusões. Pois, “câmpus de futebol” ou “câmpus eletromagnético” poderiam assim ser grafados em nosso idioma, já que essas expressões não existiam em Roma e nos foram apresentadas há menos de dois séculos e aí sim, a partir do inglês: field (pitch); electro-magnetic field. É notável que a situação se nos apresenta ainda mais complicada à medida que descobrimos outros exemplos: concentration camp, refugee camp –  “câmpus de concentração”; “câmpus de refugiados”, seriam expressões possíveis a partir da hipótese da importação de campus do inglês.
 Quintus: Definitivamente, campus da universidade se refere ao espaço ocupado por ela dentro de um território e não somente ao seu mobiliário ou a seus prédios, assim como campo de batalha refere-se ao território próprio para uma contenda e não especificamente ao armamento, soldados etc, que fazem parte do conjunto do teatro de operações bélicas.  Campo de futebol se refere ao território delimitado onde o jogo se pratica e não especificamente aos jogadores, torcedores, vestiários etc.

V. Das comparações impróprias

Novamente poderíamos encerrar este artigo no parágrafo anterior, mas vamos adiante. Respeitosamente, temos que discordar novamente da professora Maria Helena de Moura Neves, que sustenta ao apresentar a grafia “câmpus”:
“Segundo as regras oficiais de acentuação, o acento circunflexo é o sinal necessário para indicar que se trata de palavra paroxítona, já que as palavras portuguesas terminadas em -u (s) não-acentuadas são oxítonas. A partir daí, o plural é câmpus , igual ao singular (como bônus , íctus , vírus).”
A palavra virus pertence à segunda declinação latina e significava originalmente veneno, peçonha, suco, humor, essência, droga ou sêmen, no caso de animais. Hoje, vírus serve para identificar, na Biologia, pequenos agentes infecciosos compostos pelos ácidos nucleicos DNA ou RNA – por essa natureza, os cientistas ainda se debatem na classificação exata do “ente” vírus no Reino Animal ou fora dele. Na Informática, o vírus também é conhecido pelo seu lado “venenoso”, pois é um software malicioso feito para infectar computadores.

Com efeito, vírus serve para definir tudo isso, mas jamais terá serventia como paradigma na conversão de campus para “câmpus”. Em latim, os muitos nomes terminados em “us” (são femininos na segunda declinação) têm três e somente três exceções como neutros e, ao mesmo tempo, defectivos: viruspelagus (mar) e vulgus (vulgo). Então, encontramos alguns impeditivos para a comparação entre campus et virus na tentativa de justificar a suposta existência de “câmpus”.
Declinando a pala virus, i:

Caso
Singular
Plural
Nominativo
virus
Não existe
Vocativo
vire
Não existe
Genitivo
viri
Não existe
Dativo
viro
Não existe
Ablativo
viro
Não existe
Acusativo
virum
Não existe

Perguntas:
Prima: em latim, pode um nome (substantivo) neutro ser paradigma de um nome masculino, mesmo que da mesma declinação?
Secunda: o português tem palavras neutras?
Tertia: em latim, pode um nome (substantivo) defectivo, que só existe no singular, ser paradigma de um nome que se flexiona em número?
Quarta: pode um nome que não tem o acusativo plural ser comparado com um nome que possui os dois acusativos e que, portanto, conta com as condições para ser aportuguesado por meio desse caso e de forma direta?
Quinta: pode em lógica a parte ser maior do que o todo e no português e latim, a regra de exceção abranger a regra geral?
Sexta: é o inglês o idioma que deu origem ao português?

VI. Da “autoridade” linguística dos manuais de redação e jornais

No Brasil, infelizmente, ainda se usa per fas et per nefas o método da autoridade em oposição ao método científico. Assim, ao vulgo, o grito discordante de um redator de jornal, numa tarde de vento, é bastante para uma nova regra dada à língua ou a quaisquer outras coisas. – Socorro! – Desse alarde em diante será apenas uma propagação de erros constantes. E aos entorpecidos pelos juízos ligeiros, tais regras irão fazer o mesmo efeito da luz para os que estão perdidos no talvegue das sombras ou trarão a mesma consequência da fé para os arruinados no umbroso vale da morte.
Mas não se desesperem, porque a Lógica nos socorre no velho silogismo: toda autoridade é humana e o homem é falível; logo, a autoridade, mesmo de grande valor intelectual e de moral inquestionável, pode falhar ao determinar uma verdade doutrinária, caso não se dobre ao método científico, que procede por demonstração e recorre ao processo da evidência intrínseca.
“O mestre o diz”, repetiam os discípulos de Pitágoras ao tentarem provar suas doutrinas e com isso estavam contentes. Grande foi Pitágoras, porém pequeno o método de seus discípulos. Método do “Amém” que, se continuado, conduziria certamente à estagnação da ciência, conferindo a autoridades humanas uma infalibilidade que elas não têm. “O apelo à autoridade só pode intervir, em resumo, para guiar a indagação ou confirmar asserções demonstradas segundo as exigências científicas. Vê-se, assim, que o argumento da autoridade é, conforme a expressão de Santo Tomás, ‘o mais fraco dos argumentos’.” [Jolivet, p. 143; 1969].
Dessa forma, “o mestre o diz”, são elaborados os manuais de redação. Numa penada, os redatores desses manuais simplesmente nos mandam esquecer a anciã língua latina e carpir nossa lusitana língua condenada à morte por maus-tratos diários nas páginas da soberba imprensa.
“Câmpus. Aportuguesando: o câmpus, os câmpus” (sic, Manual de Redação e Estilo do Estado de S. Paulo, p. 118). Assim, ex cathedra, sentado na cadeira de São Pedro, o autor do Manual dá seu veredito, sem mais explicações. É a divina palavra aos sectários da infalibilidade das cartilhas. Na edição disponível na internet, o manual da Folha de São Paulo é mais sintético ainda: “campus (lat.)”, ou seja, a Folha manda simplesmente grafar campus, sem distinção entre singular, plural e explicação alguma ao que classifica de estrangeirismo.
O pior é que a coisa não termina por aí. A moda dos manuais de redação, movida por apelos de marketing, se espalha pelo Brasil e cada periódico resolve construir a própria gramática. Embora feitas para o consumo interno dos jornais, rádios, TV e internet – repórteres, redatores e editores – essas “gramáticas” tornam-se livros de cabeceira de estudantes que se contentam com o “prato feito” em prejuízo do estudo elaborado, com base na razão e não somente no falar ex professo.

VII – “Câmpus” em vez de campus, uma questão de marketing

Ab initio verificamos que as grafias “câmpus/campus” não se justificam no português e muito menos no latim. Mas, nisso tudo há um fato e pelo menos uma pergunta. Fato: as grafias campus et campi estão sendo alteradas inopinadamente por várias instituições de ensino brasileiras, às vezes por “câmpus” (doutrina do Jornal Estado de S. Paulo) e outras por “campus” (doutrina da Folha de S. Paulo).  Pergunta: qual é a razão de tanto esforço para se escrever fora dos padrões de nossa língua? Para responder vamos recorrer aos jornais, raízes do problema, ao insistirem nessas grafias equivocadas.
Os manuais de redação começam no Brasil como normas de estilo e gramática e, com o decorrer do tempo, passam a ser o lugar de apresentação da postura ética das empresas jornalísticas, bem como dos modos de fazer jornalismo. A preocupação dos jornais, ao produzirem seus manuais, não poderia deixar de ser outra: sua relação com o leitor. Há uma preocupação didática com a audiência. Ela está vinculada a uma das funções centrais do jornalismo: a pedagógica. (VIZEU; CORREIA, 2007).
Ora, se um manual de redação expressa a “preocupação” dos jornais com o leitor – e até onde se sabe é o leitor quem compra os jornais – haverá também “preocupações” do capitalista, o dono do jornal, que se estendem ao mercado e a imagem do produto neste mercado. Como há uma guerra constante dos jornais em busca de leitores-consumidores, o manual de redação, vendido como “apresentação de postura ética da empresa jornalística", passa também a ser um argumento de vendas, ou produto para o marketing empresarial.
Em outras palavras, na guerra de marketing, os jornais usam seus manuais de redação para convencer o leitor (leia-se consumidor) de que em suas páginas está o melhor produto, elaborado com os melhores ingredientes “inteligíveis” para quem tem uma educação mediana e precisa consumir informação de forma rápida, sem pensar muito no significado das palavras, em semânticas e sintaxes. Portanto, à medida que o apelo comercial se intensifica, ao se oferecer facilidades aos leitores, os jornais padronizam a linguagem de acordo com os parâmetros obtidos em pesquisas de mercado, traduzidos pelo “perfil do leitor”.
É outro fato que esse leitor não estudou latim, porque as escolas não ensinam mais latim. Logo, dentro da função central do jornalismo que é a “pedagógica”, usar termos latinos foge totalmente da “didática com a audiência”, pois essa didática pretensamente ética passa pela simplificação da linguagem, mesmo que para isso se tenha que abrir mão de algumas regras e padronizações da língua portuguesa. Em resumo, um texto fácil, mesmo que pobre e defeituoso, atrai leitores, melhora a audiência, e faz vender mais. Esse é o espírito, essa é a miséria.

VIII – Campus em vez de ager, uma questão ideológica

A propósito, já que estudamos o emprego da palavra campo, é bom que se diga que ela também sofre “pressões ideológicas” encampadas pelos jornais quando se refere às coisas próprias da agricultura ou da pecuária. Voltemos ao registro de campus no dicionário, especificamente do registro 4 em diante. Na época de Cícero, a palavra campus, por redução, era praticamente sinônima da expressão Campo de Marte e por extensão, para tudo que podia ser realizado naquele espaço, desde assembleias do povo, que definiam a carreira política de um jovem tribuno, ou até uma luta ou contenda. Hoje, nesses significados, é lógico que o verbete campus está fora de uso. Entretanto, esse processo reducionista apontado para Campo de Marte se repete em nossos dias com a tentativa dos meios de comunicação de transformar campos no sinônimo geral de agricultura, agropecuária e tudo que faz parte desse universo. Para tal, igualam campus ao nome ager, agri – campo, terreno cultivado, o campo e não a cidade – ou ao adjetivo agrarius, a, um – do campo, rural.
Desde o Brasil colônia e até nossos dias, caso se consultem os livros e periódicos correspondentes a este período, verifica-se que a palavra campo sempre guardou seu significado geral de lugar, espaço ou território. Mas ao mesmo tempo, e com intensidade a partir da industrialização e consequente urbanização, ou seja, a partir da República Burguesa – na interpretação de Caio Prado Júnior – as correntes de transmissão do pensamento da nova elite social brasileira passaram a usar e abusar da palavra campo como qualitativa das coisas e pessoas que compõem o espaço agrícola, na tentativa de explicar este Brasil, que assumia suas feições urbanas, em nova realidade, inclusive para aqueles brasileiros inicialmente radicados em ambiente rural.  A revolução burguesa do final do século XIX e início do século XX, que se aproveitava de uma mão-de-obra “vadia” do final do regime servil, também iniciaria assim o processo de redefinição de significados de palavras para explicar o novo statu quo e para mascarar problemas sociais existentes.
Nesse sentido, na década de 1970 o matiz ideológico do “homem do campo” foi cantado e massificado pela dupla sertaneja Dom & Ravel, estigmatizada por suposto apoio à Ditadura Militar:
“Obrigado ao homem do campo
O boiadeiro e o lavrador
O patrão que dirige a fazenda
O irmão que dirige o trator (...)”
É evidente que na música, esse “homem do campo” não tem um perfil específico ou particular, podendo significar latifundiário, pecuarista, pequeno produtor, meeiro, colono, ou trabalhador volante (boia-fria). E de maneira similar, campo também abrange conceito de território rural, porém sem quantificá-lo, podendo ser uma grande fazenda ou latifúndio, um pequeno sítio, uma chácara, ou qualquer ambiente fora das franjas urbanas. Em consequência, produtos do campo surgem como resultado da produção agroindustrial que não questiona o método de produção em todas as suas vertentes: econômica, de saúde, ou de proteção ao meio ambiente:
“Obrigado ao homem do campo
Pelo leite o café e o pão
Deus abençoe os frascos que fazem
O suado cultivo do chão
Obrigado ao homem do campo
Pela carne, o arroz e feijão
Os legumes, verduras e frutas
E as ervas do nosso sertão
Obrigado ao homem do campo
Pela madeira da construção
Pelo cocho de fios das roupas
Que agasalham a nossa nação
Pelo cocho de fios das roupas
Que agasalham a nossa nação (...)”
Essa artificialidade da palavra “campo”, hoje reproduzida pelos meios de comunicação para descrever a realidade do espaço agrícola moderno, pode ser verificada com certa facilidade, pois o campo como ideia das elites urbanas não é o mesmo do ideário de quem vive no ambiente rural. No Brasil, ninguém que sobrevive da terra se identifica como “homem do campo” quando perguntado sobre a ocupação ou profissão que exerce. As respostas necessariamente cairão em produtor agrícola, agricultor, trabalhador rural, patrão, pecuarista, boiadeiro, sitiante, peão, tratorista, braçal, volante, boia-fria etc. De igual maneira, ninguém diz que veio ou vai para o campo. Aqui no Brasil, o bom caboclo diz que veio da roça, da fazenda, da lida, do sítio, dos cafundós, donde Judas perdeu as botas, mas jamais diz que veio do campo.
Observem que, em contrapartida, expressões ligadas aos movimentos sociais e que identificam os trabalhadores como camponês, campesino, campesinato, estão fora do vocabulário da imprensa brasileira.

IX Conclusão

Este artigo se fez mais longo do que o planejado. Ao desenvolvê-lo, percebemos que certos aspectos precisavam ser detalhados para a melhor compreensão dos tópicos. Há de se crer que o escopo principal foi atingido – a demonstração das incongruências dos argumentos de quem defende uma escrita diferente em português para as palavras latinas campus et campi.
Neste trabalho, também consideramos demonstrado que a grafia “câmpus” não se justifica em nossa língua e que campus também não é uma palavra do nosso vernáculo em contraste com o seu equivalente campo, que é o aportuguesamento indicado e correto.
Por outro lado, verificamos que há aspectos históricos que não podem ser desprezados no uso dessa palavra latina para identificar o espaço ocupado pelos prédios e mobiliários das universidades e faculdades. Historicamente, não há equívocos em se usar campus et campi, como não há argumentos históricos convincentes para tais mudanças.
Tecnicamente, nesse estudo não se descobriu um apelo popular, ou da literatura, para a mudança proposta. Os que propõem as novas grafias são os manuais de redação de jornais, sem justificativas que se sustentem na construção da língua. Infelizmente, parte da comunidade acadêmica já encampou a proposta e defende, não sem equívocos, as novas grafias.
Por fim, ao se verificar como o caso é tratado em outros países, gostaríamos de destacar algumas soluções inteligentes para o problema – se é que ele existe no caso brasileiro. A Universidade de Coimbra livrou-se de ter que declinar a palavra latina campus simplesmente adotando esse nome para a totalidade de suas instalações e dando o nome de polo para as subdivisõesEntão, o campus da Universidade de Coimbra tem vários polos. Ou ainda, a solução encontrada pela Universidade de Bolonha, ao criar a expressão multicampus, que nada mais é do que um conjunto de campi.  Nessas soluções, há a inteligência de não se espancar as línguas nativas e muito menos o latim.

 Bibliografia

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