sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Lobão e Roger detonam a cultura oficial, caricata e venal


Lobão e Roger

Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), Ariano Suassuna (1927-2014) alertava-nos para a existência de dois brasis: o oficial e o real - Um dia - discursou Suassuna - lendo Alfredo Bosi, encontrei uma distinção feita por Machado de Assis e que é indispensável para se entender o processo histórico brasileiro. Ele critica atos do nosso mau Governo e coisas da nossa má Política. Mostra-se ácido e amargo com uns e outras e depois explica: “Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu País. O ‘país real’, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o ‘país oficial’, esse é caricato e burlesco".

Há de se concordar com o autor do Auto da Compadecida, com a existência desses dois rios paralelos também concorrendo para formar e firmar a Cultura Brasileira. Um deles podre, é verdade, poluído pelo caricato e burlesco da má política, inclusive a política cultural, oficialesca, manipulada pela frescura dos grupelhos autodenominados "produtores culturais", verdadeiros terneiros que mamam nas tetas estatais. E o outro rio, ainda limpo, mas sempre ameaçado pela poluição do primeiro, em que os melhores instintos de nosso povo são mostrados sem retoques e translúcidos.

Em suma, a política cultural de Estado, da forma que foi tocada nos últimos 30 anos, mais danos trouxe à cultura nacional do que benefícios, pois em seu nascedouro aflora o mercado que se especializou em vender peixe podre tirado ao rio da mediocridade. De tal sorte, que o fazer arte e cultura neste país se subordinou a cartilhas ditadas por esses "produtores culturais", safados sabujos de partidos que só conhecem uma arte de fato, a da pilantragem de viver das tetas públicas, num mecenato disfarçado em renúncia fiscal, ignorando a miséria de nossa gente, ou melhor, só a admitindo nas "obras artísticas" - em sua maior parte caricata, venal, pernóstica e degenerada ao gosto do olhar oficial, do grupelho que aparelhou o Ministério e secretarias da Cultura de estados e municípios.

Dentre as coisas boas das eleições neste ano, está a reverberação dos alertas feitos por artistas que não aceitam o domínio ideológico das artes, sobremodo na música e literatura, casos dos quixotes, a quem a cultura já deve muito, João Luiz Woerdenbag Filho (o Lobão) e Roger Rocha Moreira (o Roger, líder da Banda Ultraje a Rigor, que se apresenta no programa do Danilo Gentili, outro severo crítico da "industria cultural" dos grupelhos), os quais já vinham há anos denunciando a sacanagem e por isso pagaram alto preço em suas carreiras ao peitarem o status quo da pilantragem. Porquanto, da outra margem do rio, se posicionam os "resistentes da sacanagem", os sem talento, os que só entendem como arte aquilo que a Globo e um monte de jornalistas bobocas, também na caixinha, semiletrados, dizem entender ser cultura.

Por isso, precisamos ficar atentos a partir do dia primeiro de janeiro próximo. O desmame dessa turma, que é enorme, promete ser feito no choro, berros e esperneios. Ter que trabalhar, sem enganar e atrair público pelo próprio talento, deve assustá-la mais do que o tinhoso em encruzilhada. Enquanto isso, em paralelo, há de se estabelecer um sólido projeto de política cultural que avance para o país real, em que se privilegie todas as vertentes culturais existentes no país, sem protecionismo e principalmente, sem a safadeza do roubo em nome da arte ou da cultura oficiais.

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