terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Lançamento - curso de Latim - Volume I

O primeiro volume de nosso curso de Latim agora também está disponível em e-book.

Para os interessados na língua que foi falada por César, Vergílio e Cícero, basta clicar aqui.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A propaganda política nos muros de Pompeia



Muro pichado em Pompeia, 79 d.C. - Itália
A propaganda é a alma e a lama da política. Sem meios de comunicação outros, o negócio era emporcalhar os muros e paredes, como ainda é feito hoje. Portanto, os grafiteiros ou pichadores sempre existiram, prova disso são algumas inscrições encontradas nos muros que sobraram de Pompeia, cidade que sumiu do Mapa varrida pelo Vesúvio em 79 d.C. Vejamos alguns exemplos, principalmente na área da política (outra hora comentaremos as mais picantes!), pois parece que a cidade passava por um processo eleitoral. Os marqueteiros e cabos eleitorais de hoje não fariam melhor nas redes sociais:


Peço-lhe que eleja Marcus Cerrinius Vatia para a vereança. Todos os beberrões noctívagos o apoiam. Flores e Fructus escreveram isto.
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Os ladrõezinhos apóiam Vatia para vereador.
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Os quitandeiros, todos juntos com Helvius Vestalis, querem a eleição de Marcus Holanius Priscus para duúnviro com poder judicial.
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Peço seu voto para eleger Gaius Julius Polybius vereador. Ele tem bom pão.
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Os almocreves querem a eleição de Gaius Julius Polybius duúnviro.
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Os adoradores de Isis unanimemente querem a eleição de Guacus Helvius Sabinus vereador.
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Proculus faz Sabinus vereador e ele fará mais por você.
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Os vizinhos de Lucius Statius Receptus pedem seu voto para elegê-lo duúnviro com poder judicial, ele merece. Aemilius Celer, um vizinho, escreveu isto. Você pode ficar doente se apagar maldosamente.
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Datia e Petronia apóiam Marcus Casellius e Lucius Albucius para vereadores e pedem seu voto. Possamos sempre contar com cidadãos assim na nossa colônia!
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Peço seu voto para eleger Epidius Sabinius duúnviro com poder judicial. Ele merece, e na opinião do meritíssimo juiz Suedius Clemens com a concordância do conselho, devido a seus serviços e probidade, digno da municipalidade. Eleja-o!

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Peço-lhe eleger Aulius Vettius Firmus vereador. Ele merece a municipalidade. Elejam-no, jogadores de bola, elejam-no!

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Lobão e Roger detonam a cultura oficial, caricata e venal


Lobão e Roger

Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), Ariano Suassuna (1927-2014) alertava-nos para a existência de dois brasis: o oficial e o real - Um dia - discursou Suassuna - lendo Alfredo Bosi, encontrei uma distinção feita por Machado de Assis e que é indispensável para se entender o processo histórico brasileiro. Ele critica atos do nosso mau Governo e coisas da nossa má Política. Mostra-se ácido e amargo com uns e outras e depois explica: “Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu País. O ‘país real’, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o ‘país oficial’, esse é caricato e burlesco".

Há de se concordar com o autor do Auto da Compadecida, com a existência desses dois rios paralelos também concorrendo para formar e firmar a Cultura Brasileira. Um deles podre, é verdade, poluído pelo caricato e burlesco da má política, inclusive a política cultural, oficialesca, manipulada pela frescura dos grupelhos autodenominados "produtores culturais", verdadeiros terneiros que mamam nas tetas estatais. E o outro rio, ainda limpo, mas sempre ameaçado pela poluição do primeiro, em que os melhores instintos de nosso povo são mostrados sem retoques e translúcidos.

Em suma, a política cultural de Estado, da forma que foi tocada nos últimos 30 anos, mais danos trouxe à cultura nacional do que benefícios, pois em seu nascedouro aflora o mercado que se especializou em vender peixe podre tirado ao rio da mediocridade. De tal sorte, que o fazer arte e cultura neste país se subordinou a cartilhas ditadas por esses "produtores culturais", safados sabujos de partidos que só conhecem uma arte de fato, a da pilantragem de viver das tetas públicas, num mecenato disfarçado em renúncia fiscal, ignorando a miséria de nossa gente, ou melhor, só a admitindo nas "obras artísticas" - em sua maior parte caricata, venal, pernóstica e degenerada ao gosto do olhar oficial, do grupelho que aparelhou o Ministério e secretarias da Cultura de estados e municípios.

Dentre as coisas boas das eleições neste ano, está a reverberação dos alertas feitos por artistas que não aceitam o domínio ideológico das artes, sobremodo na música e literatura, casos dos quixotes, a quem a cultura já deve muito, João Luiz Woerdenbag Filho (o Lobão) e Roger Rocha Moreira (o Roger, líder da Banda Ultraje a Rigor, que se apresenta no programa do Danilo Gentili, outro severo crítico da "industria cultural" dos grupelhos), os quais já vinham há anos denunciando a sacanagem e por isso pagaram alto preço em suas carreiras ao peitarem o status quo da pilantragem. Porquanto, da outra margem do rio, se posicionam os "resistentes da sacanagem", os sem talento, os que só entendem como arte aquilo que a Globo e um monte de jornalistas bobocas, também na caixinha, semiletrados, dizem entender ser cultura.

Por isso, precisamos ficar atentos a partir do dia primeiro de janeiro próximo. O desmame dessa turma, que é enorme, promete ser feito no choro, berros e esperneios. Ter que trabalhar, sem enganar e atrair público pelo próprio talento, deve assustá-la mais do que o tinhoso em encruzilhada. Enquanto isso, em paralelo, há de se estabelecer um sólido projeto de política cultural que avance para o país real, em que se privilegie todas as vertentes culturais existentes no país, sem protecionismo e principalmente, sem a safadeza do roubo em nome da arte ou da cultura oficiais.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A dúvida de amor do alfaiate Carlos Gomes


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Carlos Gomes
Aos deterministas que afirmam ser o meio e as condições de vida fatores condicionantes do destino das pessoas, Antônio Carlos Gomes (1836-1896) é a antítese dessa manca teoria tão cara aos "filósofos" de um livro só. Carlos Gomes, ou simplesmente Nhô Tonico, como ele mesmo gostava de ser chamado e assim assinava, nasceu em Campinas. Criança, perdeu a mãe, assassinada aos 28 anos de idade. Foi criado com os irmãos pelo pai, sempre em grandes dificuldades e, por isso, trabalhou em alfaiataria costurando calças e paletós para "financiar" seus estudos musicais.

Antes de alcançar fama mundial, a partir da Itália, como compositor de Ópera, a trajetória de Carlos Gomes passa pela música "popular" para a época. Aos 15 anos de idade compunha valsas, quadrilhas e polcas. Em 1857 compõe a modinha "Suspiro D'alma", com versos de Almeida Garret. Depois da apresentação de algumas de suas obras no Rio de Janeiro e já com fama na corte e financiado por uma bolsa do Império, ele foi estudar na Itália, onde teve seu talento reconhecido. Daí em diante a história do autor da ópera "O Guarani" é bem conhecida. Por isso vou me ater somente à música "Quem Sabe?", uma das canções de cunho popular e muito ao gosto de todos os públicos por mais de século, com versões de arranjos gravadas por cantores populares e eruditos.

Francisco Leite de Bittencourt Sampaio 
A letra tem como base os versos do jovem poeta romântico Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834-1895). A data da pareceria é de 1859, e essa canção tem seu espírito romântico reforçado pela saudade que Carlos Gomes sentia de Ambrosina, sua namorada, filha da família Correia do Lago. Ambrosina teve sua memória eternizada na música, mas foi só isso. Carlos Gomes haveria de casar-se na Itália, com Adelina Péri.
 Aqui vão os versos da primeira estrofe, para uma breve análise:

Quem Sabe?

Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento

Já no primeiro verso, notamos a vocação para música imposta ao poema em sete sílabas poéticas bem medidas (redondilha maior). O tema já sobressai nele, a distância que separa os amantes e, a partir daí, o poeta avança para a dúvida, coisa tão cara aos românticos, ao questionar onde estaria o pensamento da amada.

Nos versos seguintes, são varições sobre a distância que os separa e a dúvida no coração de quem ama a partir de juras de amor. Fórmula perfeita, juntada à genialidade da música de Carlos Gomes, para a canção cair no gosto popular, pois este tema, o amor com seus sofrimentos, é eterno na poesia e, portanto, fala aos corações de todas as gentes. Veja no restante da letra e a interpretação selecionada de Diana Pequeno:

Quisera saber agora
Quisera saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento
Quem sabe? Se és constante
Se, ainda, é meu teu pensamento
Minh'alma toda devora
Da saudade agro tormento
Tão longe, de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera saber agora
Se esqueceste, se esqueceste o juramento
Quem sabe? Se és constante
Se, ainda, é meu teu pensamento
Minh'alma toda devora
Da saudade agro tormento
Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Suspiros, angustias, dores
Suspiros, angustias, dores
São as vozes, são as vozes
São as vozes do meu canto
Quem sabe? Pomba inocente
Se também te corre o pranto
Minh'alma cheia d'amores
Te entreguei já n'este canto
Vivendo de ti ausente
Ai meu Deus, ai meu Deus que amargo pranto
Suspiros, angustias, dores
São as vozes, 
São as vozes do meu canto
Quem sabe? Pomba inocente
Se também te corre o pranto
Minh'alma cheia d'amores
Te entreguei já n'este canto.

domingo, 11 de novembro de 2018

Lobo de Mesquita - a música sacra brasileira


Criminosamente, temos verdadeiros tesouros ocultos da maior parte dos brasileiros. Culpa evidente dessas políticas que praticamente destruíram a cultura nacional e qualquer acesso à cultura de qualidade produzida em outras partes do mundo. Por isso, aos finais de semana, passo a publicar um pouco de música em latim, que traduzirei e comentarei. No caso das composições religiosas, usarei como referência o Missal Cotidiano, dos Beneditinos da Bahia, na edição que  possuo da década de 1930.

 Hoje, apresentaremos a oração católica Salve Regina (Salve Rainha). Regência: Rodrigo Toffolo, Orquestra Experimental UFOP/Ouro Preto Coro Madrigale - Maestro Arnon Sávio. Soprano Solo: Doriana Mendes. Gravado em 26 de junho de 2007, na Igreja N.S. da Conceição Ouro Preto - Minas Gerais - Brasil.

 A música é de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805) compositor e professor brasileiro, que tem sua obra, música sacra, ainda sendo pesquisada e reeditada. Do total de sua produção, calculada em cerca de 500 composições, restam menos de 90. Lobo de Mesquita é patrono da cadeira 4 da Academia Brasileira de Música e é um dos maiores nomes da música erudita brasileira.

Salve, Regina, Mater misericordiae, Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vita, dulcédo et spes nostra, salve. vida, doçura e esperança nossa, salve! Ad te clamamus, éxsules fiIii Evae. A vós bradamos, os degredados filhos de Eva; Ad te suspirámus geméntes et flentes a vós suspiramos, gemendo e chorando in hac lacrimárum valle. neste vale de lágrimas. Eia ergo, advocáta nostra, Eia, pois advogada nossa, illos tuos misericórdes óculos ad nos convérte. esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei; Et Jesum benedíctum fructum Ventris tui, nobis, post hoc exsílium, osténde. e depois deste desterro nos mostrai Jesus, bendito fruto do vosso ventre, O clemens, o pia, o dulcis Virgo María! ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria. *** Ora pro nobis, sancta Dei Génitrix. Rogai por nós, santa Mãe de Deus, Ut digni efficiámur promissiónibus Christi. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo