quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O silêncio do Universo - O paradoxo de Fermi - Física



Prof. José Fernando



Ouvi falar do Paradoxo de Fermi ainda na adolescência. Nele explora-se a contradição da existência de tantos mundos neste Universo e, ao mesmo tempo, nenhuma constatação com provas científicas da existência de vida ou inteligência fora de nosso planeta. O físico italiano Enrico Fermi (1901-1954) expôs esse paradoxo junto com outras perguntas até hoje não respondidas sobre o Universo, em conversa com amigos num almoço em 1950. Desde lá, nada foi esclarecido, muito pelo contrário, as dúvidas só se fizeram avolumar com as descobertas posteriores, principalmente com a comprovação recente da existência de outros planetas em sistemas solares distantes.

Estamos sozinhos pode ser uma conclusão lógica, ao se considerar essa falta de evidências de vida fora daqui. Estaríamos, portanto, condenados ao grande silentium universi – sem comunicação alguma com o que quer que seja.

Mas examinemos mais algumas hipóteses, além dessa da solidão universal. Uma delas determina a ação proposital de inteligências extraterrestres em não se comunicar com o homem, por motivos que levantariam dezenas de outras hipóteses. Outra seria que essas extracivilizações não são inteligentes ou não desenvolveram instrumentos capazes de contatos fora de seus mundos - há de ser considerada também as novas teorias do Multiverso.

Essas seriam, de forma ligeira, as principais respostas para o paradoxo proposto por Fermi. Particularmente, não posso crer na primeira, a que nos mostra a existência de um número incontável de estrelas e planetas que reúnem hipoteticamente condições de desenvolver a vida, mas não desenvolvem. Não seria lógico e isso nos daria uma responsabilidade enorme como os únicos seres capazes de questionar até mesmo o próprio Universo. E mais particularmente ainda, aposto na existência de vida fora de nosso planeta, mas acredito que essa vida é tão inteligente que aqui não aparece por ser o homem um caso perdido. Talvez, a falta de comunicação nada mais é do que o resultado de um isolamento proposital num plano colocado adiante por essas criaturas para realmente isolar o homem, como se aqui fosse um planeta reservado para descarte de experiências genéticas nefastas. Seríamos, pois, os indesejáveis — por nosso espírito de ódio, pelos nossos desejos bélico e de destruição — em prisão incomunicável até o nosso desaparecimento total.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Decálogo do Artista - Gabriela Mistral

José Fernando Nandé

Ao ler poetas chilenos, deparei-me com Gabriela Mistral (1889 — 1957), que aqui é pouco lembrada, a não ser em nome de rua ou de escola. Não é difícil em seus escritos, a verificação de que estamos diante de uma poeta formidável, ou poetisa como prefere alguns, agraciada com o Nobel de Literatura de 1945, o qual lhe fez justiça.
De seus poemas, tomamos a liberdade de traduzir o que segue e que pode nortear alguns artistas para que eles não caiam na falsa arte exigida pelo mercado e não se tornem mercadores de modismos. Eis, pois, o Decálogo do Artista: 

I. Amarás a beleza, que é sombra de Deus sobre o Universo.
II. Não há arte ateia. Ainda que não ames o Criador, o afirmarás criando a sua semelhança.
III. Não darás a beleza como falsa isca para os sentidos e sim como o natural alimento d’alma.
IV. Não serás pretexto para a luxúria nem para a vaidade e sim para o exercício divino.
V. Não buscarás no mercado nem levarás tua obra a ele, porque a beleza é virgem e o que está no mercado não é ela.
VI. Sairá de teu coração o teu canto e ele te fará purificado.
VII. Tua beleza se chamará também misericórdia e consolará o coração dos homens.
VIII. Darás tua obra como se dá um filho: tirando sangue de teu coração.
IX. Não te será a beleza o ópio que entorpece e sim o vinho generoso que te levará para a ação, pois se deixas de ser homem ou mulher, deixarás de ser artista.
X. De toda criação sairás com vergonha, porque foi inferior ao teu sonho, e inferior a este sonho maravilhoso de Deus, que é a Natureza.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Robô: não matarás - as leis de Asimov

José Fernando Nandé

Assemelha-se à ficção científica, mas é a mais pura realidade tangível e escarrada, um grande problema para ser resolvido por todos nós: quando um robô mata um ser humano, o que devemos fazer e como ele deve ser punido?
Vejam esse exemplo interessante: há três anos um robô causou a morte de funcionário em uma das fábricas de produção da Volkswagen na Alemanha.
A vítima, de 22 anos, fazia parte de uma equipe responsável pela criação de um robô estacionário, que o agarrou e o esmagou contra uma placa de metal. De acordo com as investigações, se aponta que o erro ocorreu por falha humana e não por um problema com o robô, que pode ser programado para efetuar diversas funções durante o processo de montagem.
Segundo as agências de notícias alemãs, o Ministério Público, à época, levantou a possibilidade de responsabilizar alguma parte envolvida no incidente. Sim, talvez encontremos um elemento humano para dar resposta ao “crime” à Justiça, mas e se o crime não for de natureza humana? Se a morte tenha sido causada por obra e vontade da inteligência artificial?
asimov
Asimov
Neste ponto, temos que nos socorrer do maior escritor de ficção científica que já tivemos, Isaac Asimov (1919-1992). Ele nos apresenta no livro “Eu, Robô”, as três Leis da Robótica, que foram criadas, como condição de coexistência dos robôs com os seres humanos e também como prevenção de qualquer perigo que a inteligência artificial pudesse representar à humanidade. Ei-las:
1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.
Mais tarde, no livro “Os Robôs do Amanhecer”, o robô Daneel viria a instituir uma quarta lei: a “Lei Zero“:
Um robô não pode fazer mal à humanidade nem por inação, permitir que ela sofra algum mal.
Parece-nos evidente que, nesse caso ocorrido na Alemanha, tenha se verificado apenas um acidente, produto de algum defeito na programação da máquina. Mas não esqueçam que caminhamos para o desenvolvimento de robôs dotados de inteligência artificial, que teoricamente darão a essas criaturas a possibilidade de decidir sobre suas ações, em campos de batalha, inclusive. Portanto, pensar num “código legal”  a partir dessas ideias concebidas por Asimov, não nos parece nenhum absurdo: “Robô, não matarás”!

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Homens perdem juízo com mulher bonita

Estudo publicado pela revista científica “Frontiers in Neuroscience” diz que psicólogos consideram que a beleza feminina tem a capacidade de fazer o cérebro masculino abandonar a consciência do que é justo ou não é justo.
sophiaGuardo antigo hábito de traduzir os jornais internacionais com boas editorias de Ciência e volta e meia deparo-me com notícias que comprovam o que já sabíamos empiricamente, ou seja, na prática. Há algum tempo, o ABC.es, trouxe as informações sobre o estudo científico que aponta que as mulheres muito bonitas têm algo especial que faz os homens ficarem loucos.
O estudo foi publicado pela revista “Frontiers in Neuroscience”. Nele, um grupo de psicólogos asiáticos revela que as mulheres atrativas podem fazer com que os homens deixem de pensar racionalmente e aceitem propostas que não lhes trazem nenhum benefício.
Os especialistas consideram que a beleza feminina tem a capacidade de fazer com que o cérebro perca por momentos a consciência do que é justo ou não é justo, a justiça e a não justiça.
Para chegar a essa conclusão, os especialistas pediram a 21 estudantes masculinos de uma universidade chinesa para analisar 300 fotografias de mulheres asiáticas (a metade delas qualificadas de atrativas e o resto pouco atrativas, avaliadas por um grupo externo).
Durante a observação de cada foto, foi pedido aos estudantes que respondessem se repartiriam uma pequena fortuna (soma em dinheiro) com cada uma (em alguns casos de forma justa e em outros, de forma injusta), enquanto eram monitorados: ondas cerebrais e tempo de resposta.
Na conclusão, de acordo com o estudo, se determinou que, quando as mulheres eram atrativas, a resposta era sempre afirmativa e rápida, mesmo que a oferta supostamente feita pela mulher fosse totalmente injusta para dividir o dinheiro. As ondas cerebrais também registram que o mesmo não acontecia com o retrato das mulheres pouco atrativas, as respostas não eram positivas e também não se faziam rápidas.
O estudo sugere que nossas motivações para sermos amáveis com pessoas atrativas não se baseiam em decisões conscientes para angariar benefícios pessoais. Muito pelo contrário, o charme da mulherada nos leva até mesmo a ficar com os bolsos lisos.
Agora, sugiro aos psicólogos amigos, a mesma pesquisa envolvendo homens. Creio, num belo chute empírico, que os resultados serão parecidos, mas com alguma surpresa, pois dizem que boa parte das mulheres é mais coração do que cérebro. Será?

domingo, 5 de agosto de 2018

A estupidez como modelo social da Modernidade Líquida

José Fernando Nandé


Dizem que a coisa começou lá com os gregos e ganhou força sobremodo com os romanos: nosso gosto por tudo quanto possa ser considerado dramático. A dureza da realidade nos força, inclusive para alguma saúde mental, a sonhar de olhos abertos.
Por herança, além das línguas românticas (Português, Francês, Italiano, etc), ganhamos, em nosso sangue latino, a paixão: esta capacidade de sofrer, que nada mais é do que tocar a vida adiante sem muita lucidez e afastados da razão. Por isso, amamos a tragédia e a comédia. Por isso, endeusamos nossos atores, artistas e perdemos tempo em frente à TV vendo novelas, programas sofríveis de humor e filmes.
Porém, nosso pão e circo têm lá suas limitações. O pão sempre foi pouco. No circo eletrônico onírico-virtual, os autores debatem-se para descobrir uma nova fórmula em suas ficções esgotadíssimas em qualidade e criatividade, que determinam a constante queda de audiência dos novelões, repetidos em forma, esquetes e tipos.
Nessa crise de criatividade ficcional, o que nos sobra é apelar para a tragédia ou comédia real e, se possível, dramas particulares eivados de irracionalidade e estupidez, como se isso nunca tivesse feito parte da condição humana. A criança arremessada pela janela por um casal, ou a moça sequestrada e morta pelo namorado, ou o menino morto em alguma praia europeia, ou um golfinho maltratado e morto por turistas, ou uma advogada arremessada pela janela por um animal identificado como marido ou namorado, ou uma vereadora morta que vira heroína do nada, são sequências de uma mesma história de horror televisiva. É o horror como notícia, é o horror para nossa distração.
Nessa tragédia real, colocamos entre os atributos da notícia a capacidade dela tornar-se um drama desenvolvido em capítulos desconexos, porque a realidade não nos parece conexa. A paixão levada do privado para o público, do particular para o coletivo.
Mas dentro da tragédia em escala industrial, manda o manual da audiência, misturarmos algum riso ao trágico. Nessa nova comédia real, votamos em candidatos engraçados e estúpidos para assim garantirmos esse riso extra. Rimos das tolices dos programas especializados na desgraça alheia, que julgamos engraçada. Rimos do humor duvidoso e pouco inteligente desses programas da piada industrializada. Rimos de nossa própria condição de massa manipulável.
Nada disso é novo, como disse. Porém, o rir e o chorar alcançaram a escala industrial dentro dessa indústria que busca nos distrair de nossa condição de condenados dentro de uma sociedade que perdeu o juízo. Ou dentro de uma civilização que, a rigor, nunca alcançamos.
Deriva dessas misérias da pós-modernidade, ou Modernidade Líquida, a necessidade de ter assunto por meio das redes sociais; as novas fórmulas para espalhar o boato, a notícia nos modernos meios eletrônicos, em escala, velocidade e alcance, antes inimagináveis. Na verdade, estamos dando nova roupa ao velho fuxico de cerca de nossos avós, quando tudo era contado de ouvido para ouvido.
Temos dois mil anos de desenvolvimento da técnica que culminou na Sociedade da Informação, rápida, global e deficiente ao informar. Dois milênios usando todo nosso gênio para que lembremos em instantes que, sob os efeitos das paixões, não somos diferentes dos nossos semelhantes que habitavam as cavernas: estúpidos e desgraçadamente animais, que riem e choram por distração, conscientes que somos do nosso próprio fim.

sábado, 4 de agosto de 2018

No Jardim do Éden, colhíamos alho - Conto

José Fernando Nandé

Tenho a pior memória do mundo, aquela que nada esquece. Absolutamente nada. Lembro-me dos primeiros brinquedos feitos por minhas mãos infantis, alguns de lata, outros de madeira, ou ainda de qualquer quinquilharia que encontrava. Em criança, o brinquedo não está somente no objeto, mas no que imaginamos ser o objeto. Uma lata de óleo arrastada por um cordão pode virar um trem, ou ainda qualquer coisa que possa carregar carga. Uma estrada desenhada no chão por uma enxada vira uma rodovia inteira, ligando cidades imaginárias.
Dessa época que evoco, na primeira infância, brincar por tempo mínimo era-me a fuga da realidade que já me obrigava ao trabalho. Lembro-me que num sábado frio, tive que ir até um sítio colher alho, a troco de alguns centavos. O solo estava úmido e gelado. Em poucos minutos envolvido na tarefa, junto com outros maltrapilhos, a dor nas costas se fazia insuportável, já que trabalhávamos agachados e com o corpo voltado para frente.
Havíamos começado cedinho e só fizemos uma pausa para o almoço. O problema é que não tinha almoço, poucos trabalhadores haviam levado algo para distrair o estômago.  Um dos peões, andarilho, bem mais velho do que os outros miseráveis que no eito penavam, cedeu-me um naco de pão e ensinou-me a preparar uma massa de alho para recheio. Um horror para um guri de 10 anos que sonhava com doces, mas suficiente para matar a fome, infinitamente ampliada pela dura jornada naquela lavoura que até as formigas evitavam.
Creio que o nome daquele sujeito, o qual me dera o que comer, era Adão – assim ele dizia ser seu nome e assim acredito. Adão vivia neste mundo seguindo, letra por letra, o castigo divino: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás”. Além disso, ouvi comentários de que ele era ex-presidiário, pois no seu destino de Adão, havia matado a mulher e seu compadre, que andavam dividindo a maçã oferecida pela serpente da traição: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.
Enquanto eu quase chorava comendo aquele pedaço de pão amanhecido com alho e água, Adão matutava em voz alta:
– Pensei ter tudo na vida, mas tudo era engano, nem meus filhos sei se são meus. Perdi o nada que pensava ter. Não tenho mais nada, além dessas pernas que me levam longe… Fujo de mim mesmo…
Olhei para o andarilho e vi que ele falava e falava para algum ser imaginário ao meu lado. Confesso ter sentido medo. Os olhos vermelhos do desgraçado davam-me medo. Mas logo isso passou, quando, com certa ternura na voz, ele me aconselhou:
– Escuta menino – disse-me Adão, segurando a Bíblia que tirou do seu embornal – e isso é um conselho, antes que você conheça mulher e tenha filhos, leia este livro, mas não a leia como um crente; leia o Gênesis como se estivesse ouvindo um sábio. Infelizmente, só fiquei sabendo desse livro na prisão e se soubesse dele antes, não teria feito tanta besteira na vida.
Ao dizer-me isso, o andarilho abriu o livro de páginas sujas e quase soltas e leu em voz alta para que todos escutassem:
– “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.”
Trabalhamos até o escurecer. Recebemos nossos trocados e foi a última vez que vi o andarilho. Alguns dias depois fiquei sabendo que, naquele mesmo sábado, à noite, ele fora atropelado e morto na rodovia do Café, depois de ter tomado um litro de pinga numa vendinha de beira de estrada. Adão cumprira seu destino, tornara ao pó sem mais esperanças no Paraíso que a si imaginara.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

A falência do controle social das antigas estruturas - partidos, ongs, sindicatos e governos

José Fernando Nandé


Atônitos, políticos do mundo inteiro, inclusive no Brasil, perguntam-se o que está acontecendo com as antigas estruturas de controle social que davam sustentação a seus ideários e caprichos. O que aconteceu com a capacidade dos partidos, instituições governamentais, ongs, sindicatos e centrais sindicais no domínio das massas? 
Por que, hoje, a opinião pública parece tão volúvel e as pessoas não se enquadram mais nas orientações de comandos hierarquizados dessas velhas estruturas, que pareciam funcionar tão bem e de repente se viram reféns dessas massas, as quais já não obedecem os preceitos da hierarquia verticalizada e parte para uma nova estrutura horizontal – e aparentemente caótica-anárquica – que não aceita mais o pão industrializado e uniformizado da informação pré-mastigada, ao preferi-lo feito com as próprias mãos e integral? O que foi a Primavera Árabe, o que estão sendo essas séries de movimentos contestadores aqui e mundo afora, excludentes a partidos e outros mecanismos de controle de pensamento e ações políticas? E tudo isso acontecendo dentro do que a sociologia do equívoco havia apelidado de pós-modernidade e que Zygmund Bauman trouxe para a realidade objetiva ao cunhar os princípios de sua Modernidade Líquida - fluída, informe e disforme, em movimento de corredeira, tal é nosso cotidiano. 
A resposta (ou respostas), para os temas em análise, não é simples, em função da quantidade de variáveis inerentes a esses novos fenômenos. Mas, ao se comparar o novo e o velho estilos de vida, a maioria das pessoas vai encontrar no bolso, no escritório, ou na sala de casa, as grandes pistas para boa parte das respostas: computadores e dispositivos móveis – como os celulares -, enfim, máquinas eletrônicas, que elevaram a capacidade da comunicação humana a patamares impensáveis há meio século e que determinaram o nascimento da moderna, porém ainda incompreendida ciência, a Cibernética, que agrega essas novas formas de convivência entre o homem e a máquina, entre a produção da informação e o processamento da informação, sempre em velocidade exponencial. Portanto, guardem esse ano, 1943 e o mês, fevereiro, pois é a partir desta data que os futuros historiadores marcarão o início da gestação de uma nova era para a humanidade, quando da criação do Electronic Numerical Integrator Analyzer and Computer (Computador integrador numérico eletrônico – Eniac), nosso primeiro  computador eletro-eletrônico com a possibilidade de ser produzido em certa escala.
Mulheres operando o Eniac nos EUA
É lógico que, a partir daí, temos outras datas importantes determinando eventos que influenciam nossa vida moderna. Como, por exemplo, a criação dos computadores pessoais, por meio do desenvolvimento de programas, antecedidos por válvulas eletrônicas, transístores, circuitos integrados etc. Por último, a concepção da internet – que faz interligação dos computadores num sistema global de compartilhamento de informações – desenvolvida a partir da década de 1960 e disponível para uso geral na década de 1990. Mas, precisamos do início e vamos marcar 1943, como o ano da causa primária de todos esses fenômenos sociais.
Uma vez definida a causa, vamos aos efeitos. No final dos anos 1970, ainda na Escola Técnica Federal em Curitiba, hoje CEFET, conseguimos, e longe das salas de aula, montar um pequeno computador que fazia contas elementares e respondia perguntas previamente programadas. Na realidade uma chatice, em que não víamos muita utilidade. E o problema era esse, utilidade. Em 1982, começamos a ver utilidade na “coisa”, quando desenvolvíamos programas na linguagem Fortran, em cartão perfurado, para resolver equações matemáticas no antigo computador da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O mesmo se deu ao engrossarmos as fileiras do Exército Brasileiro, quando uma simples – e absurdamente cara – calculadora Texas nos permitia fazer cálculos de artilharia sem consulta às velhas tábuas de logaritmos e trigonometria.
Entretanto foi somente depois da segunda metade da década de 1990 que a verdadeira utilidade daquilo tudo se revelou: a comunicação instantânea, por meio do ICQ (acrônimo de I Seek You – Eu procuro você), programa de comunicação pai e mãe das redes sociais que hoje utilizamos. Deste momento em diante, nada mais seria como antes (e não é!). A informação acabava de ser globalizada e com uma característica muito especial, à velocidade dos elétrons, que é a mesma da luz. Ora, se há uma fluidez dos elétrons nesta velocidade, tudo que deles decorre, tende a acompanhar a mesma velocidade e eis nó: super-velocidades para um mundo mais ou menos estático, inclusive instituições, como as ongs, sindicatos e governos.
Perdoe-nos por essa digressão, mas ela foi necessária no sentido de explicar, embora superficialmente, que estamos justamente neste ponto da Cibernética: com o intervalo de tempo entre a produção da informação e seu consumo tendendo a zero, ao mesmo tempo em que as velhas estruturas de controle social tentam, desesperadamente, a passo de cágado, controlar pelo menos parte do novo processo.
É evidente que, para entender o momento, e ter respostas para as indagações iniciais, há de se estudar com carinho o significado do “tempo zero” nesse processo global de comunicação de massa. E pelo que parece, os artífices das velhas estruturas não entenderam ainda como tudo funciona e como se faz para controlar o que já nasceu sem controle e nunca terá controle - embora alguns tentem esse controle, quixotescamente! -, pois esse sempre foi o espírito das redes sociais, a anarquia caótica que se organiza por si só, em velocidade que deixa atônitos os que achavam que possuíam mando sobre a liberdade de pensamento das pessoas ou grupos de pessoas.
Resta aos antigos controladores do pensamento, a nefasta corrida para tentar recuperar o poder perdido e para tal introduzem métodos de inserção nas redes que têm se demonstrado inócuos e até mesmo risíveis, como os chamados “sociais-mídia”- na forma mais afrescalhada, “social media” – ou os agentes “moderadores e controladores”, os “mercenários cibernéticos remunerados”, para vigiar cibernautas e dar respostas em conformidade com o antigo e caduco status quo estabelecido, porém sempre questionado. Gente a soldo que sempre vai estar aquém da eficiência, pois respostas exigem tempo de elaboração e difusão, e, como disse, o tempo nesses novos fenômenos de comunicação tende a zero. Responde-se, portanto, ao que já é velho na rede e, imediatamente, tem-se que se elaborar respostas ao novo que surge – é o Paradoxo de Aquiles na prática, que cria a ilusão do atleta alcançando a tartaruga numa corrida hipotética, incompreensível dentro dos parâmetros das superadas matemática e física pré-newtonianas, que desconheciam o cálculo infinitesimal.